realidade

Pensando nessa categoria, realidade. Não se pode dizer que seja uma categoria inúti, como o óbvio (existe categoria mais inútil que a do óbvio?), mas é uma categoria hipervalorizada. Andei acreditando um tempo atrás aí que existia essa coisa chamada realidade e que eu devia morar mais nela. Não deu muito certo. Mas tinha um erro de concepção, eu acho. A realidade deve existir em um espectro, como a inteligência, como os gradientes infinitos da sexualidade humana. Acreditei que minha velha incapacidade de separar a ficção e a realidade era somente um erro, mas ela era um recurso. São coisas que às vezes a gente demora a entender: o fato de ser tudo um truque não quer dizer que a mágica não exista. O truque é a mágica. A mágica é o truque. Isso que você chama de realidade é só o lenço que voa, o estalar dos dedos, a bomba de fumaça, chamando a sua atenção. O truque e a realidade são a mesma coisa. Se existir isso de mágica, ela é um elemento da realidade. Se existir isso de realidade, ela só pode ser um elemento da mágica. Não venha você me dizer que não vive acossado pelo intangível. Só quem acha que não são esses fanáticos da razão. Disso eu nunca padeci.

Eu disse que encontrei alguma coisa maravilhosa, o que não quer dizer que ela exista. Mas as coisas que não existem estão entre as melhores da vida.

Rui Xavier

Sempre Fui Muito Medroso

Sempre fui muito medroso,
e, justamente por isso,
sempre uma célula de mim -
intransigente -
me impulsionou ao risco,
à novidade e ao delírio.

Devo a ela quase tudo:
as conquistas
e os naufrágios,
mas começo a perceber, infelizmente,
que ela nutre pelo resto de mim
algo parecido com o desprezo
que certos soldados nutrem
pelas pessoas que nunca mataram

14/04/2021

Quero apreender isso, de alguma maneira, porque me vem a sensação de que isso é uma resposta, senão uma resposta, pelo menos um recurso, essa coisa – essa coisa que traz uma sensação, mas não é uma sensação; que evoca um cacho de memórias, mas que não é uma memória – isso que me foi trazido por um sonho como o mar deixando na praia um objeto impossível de descrever, e cuja forma no entanto é clara, gorda pepita que inverte o condão de Midas, deixa de ser ouro se você tocar, e no entanto é preciso guardá-la, porque é possível que ela te salve, é possível que seja a sua senha.

Quero conseguir apreender isso, e uso palavras, porque não confio em fazer de outra forma, sem as palavras não saberia nem por onde começar. Mas reconheço o risco, reconheço a possibilidade da catástrofe. Existem produtos químicos tão fortes que reagem com tudo, e não pode ser guardados em lugar nenhum, porque nenhuma substância pode entrar em contato com eles sem queimar ou se dissolver. E se isso for assim? Procedo com cuidado linha a linha, pois há o risco de que baste uma analogia como esta para coagular tudo. Talvez por isso Apolo fosse oblíquo, misterioso; talvez por isso as parábolas enigmáticas do zen-budismo. Porque para entender certas coisas seja preciso despir as palavras de qualquer pretensão de esclarecimento. Risque isso. Retire o entender. Eu não quero mais entender nada. Chega de entender, entender tem me sido nocivo. Eu quero apreender isso, e continuar sem entender.

Coisas que isso me lembra: a surpresa de finalmente dominar um acorde; o melancólico desejo de ser uma personagem de ficção; o farto exercício do amor em um dia livre; uma lembrança da minha mulher, que quando criança tentava guardar, em sua memória, a alegria que era ser criança, porque lhe revoltava que fosse esquecer; salões vazios e desconhecidos, e ser dono desses salões.

Rui Xavier

Eu Gosto de Discutir Ideias

Eu gosto de discutir ideias, e até acho que tenho algumas que podem interessar a outras pessoas, ideias mais ou menos elaboradas sobre os mais variados temas, coisas sobre a vida, o mundo, as leis, as artes, o dinheiro e a ciência, deus e a humanidade. Mas uma dificuldade me desanima. É uma das muitas coisas erradas que eu aprendi na infância: a intelectualidade competitiva, o desejo de vencer na discussão… e sua contrapartida, o pavor da falar uma bobagem muito grande, de ser humilhado. E também, mordendo do outro lado, uma tensão excessiva produzida por qualquer conflito, mesmo os pequeninos. Eu gosto de discutir ideias, mas acabo sempre pendendo para meus textos de ficção ou depoimentos. Quase não consigo me imaginar colaborando em certas questões espinhosas da nossa sociedade, nas quais eu teria sim algo a dizer, mas a perspectiva do debate me enche de desânimo. Seria fácil pôr a culpa na incivilidade do mundo online – e, claro, eu tenho medo dela também, mas a verdade é que mesmo o debate mínimo, e mesmo o civilizado, é o suficiente para despertar essas ondas de ansiedade. Eu gosto de discutir ideias, e elaboro longas argumentações em minha mente que nunca alcançam a página. E não tenho dúvida nenhuma de que, quando resolvo colocar essas coisas no papel, toda essa caca, esse peso, essa prudência, essa necessidade de ter razão, tudo isso transborda para o texto, que fica mais pesado, perde em fluidez, é inferior ao resto do meu trabalho. Eu gosto de discutir ideias, mas nunca aprendi a estar em um debate de ideias como em um jogo agradável de bola, ou como na construção de um entendimento comum – se aprendi foi superficialmente, no fundo do meu coração meu medo ainda é ser calado. Quem me conheceu mais novo vai se lembrar de mim como um debatedor irascível e exaltado. Não é que eu esteja totalmente acima desse comportamento agora, mas era algo que antes eu não enxergava, ou que, pior ainda, em algum momento imaginei que era uma qualidade. Eu gosto muito de debater ideias, mas com frequência debater ideias me faz mal. É algo que eu quero mudar. Quantas pessoas são como eu, acabam sonegando suas contribuições à massa do que pensa o mundo por causa desse aprendizado da inteligência como objeto contundente? É algo que quero melhorar. É verdade que o mundo, e a internet, está cheio de gente assim, que debate ideias de um modo violento e desagradável, ou então pedante, mas você não é obrigado a conversar com eles. A qualidade da conversa começa na escolha dos seus interlocutores. Quem escreve um texto começa imaginando o leitor, consciente ou inconscientemente. Eu quero ser capaz de debater ideias sem imaginar do outro lado alguém que deve ser vencido ou convencido. Deve ser possível debater ideias sem essa angústia de ter razão. Eu quero aprender esse idioma que ninguém me ensinou na infância. Eu gosto muito de debater ideias, e essa é uma verdadeira lacuna na minha vida. A arte é boa, mas tem seus limites. São funções diferentes mesmo. As ideias são secundárias na arte. Mas uma coisa não exclui a outra, você pode gostar das artes e das ideias. Só convém não acreditar tanto assim em nenhuma das duas, talvez. Mas já divago, divago. Enfim, não tenho mais muito a dizer, só a declaração desse gosto, e dessa dimensão meio tampada da minha vida. Eu gosto muito de debater ideias. Quem sabe eu consigo fazer mais disso.

Rui Xavier

Tarot: Sete de Copas

do tarot Rider Waite

No baralho Rider Waite assim é o Sete de Copas: De costas para nós, um homem admira sete copas de ouro que flutuam diante dele como uma miragem, apoiadas em uma nuvem. Da taça mais alta de todas, posicionada no canto direito, sai uma serpente que põe pra fora sua língua bífida; sobre a taça um pouco abaixo dela, no canto direito, flutua uma cabeça de mulher, provavelmente atraente, e entre essas duas taças, e um pouco abaixo de ambas, dominando o centro do arranjo, está aquela que abriga uma curiosa figura humana, de braços abertos, coberta por um lençol como uma assombração e exibindo um halo vermelho. Abaixo, completando as sete copas, estão quatro taças alinhadas, cada uma delas portando, da esquerda para a direita: uma pequena fortaleza com esguias torres no topo de uma rocha, uma pilha de jóias, uma coroa de louros e um dragão. O homem tem uma mão suspensa no ar, sua atitude é tensa. Essa nuvem sonhos o paralisa e exaspera.

O Sete de Copas é a carta das ilusões, das fantasias, do devaneio. É a carta dos ‘castelos no ar’. Se você tem muitos projetos irrealizáveis, se você sonha ardentemente com futuros fora do seu alcance, se você guarda dentro de si um carrossel de devaneios com que pode gastar horas e quem sabe a vida inteira, então essa carta tem algo a te dizer.

Sua simbologia é bastante explícita; com a pilha de jóias, a torre flutuante, a coroa de César. É considerada também uma carta da tentação – aí estão a mulher e a serpente, afinal, em posição destacada. O dragão se alinha com as riquezas e ambições de poder, talvez inseparável delas.

Resta entender a figura fantasmagórica. Ela é mágica, brilha, e está oculta. Será ela aquilo que é preciso revelar? Será ela o elemento de uma revelação possível, de alguma transcendência, em uma carta que até agora é só miragem? A Chave Pictórica do Tarot que Waite publicou junto com seu baralho, não nos dá muita esperança:

Sete de Copas: Estranhos cálices de visões, mas as imagens são especialmente aquelas do espírito fantástico. Significados divinatórios: o presente das fadas, imagens refletidas, sentimento, imaginação, coisas vistas no vidro da contemplação; alguma realização nesses graus, mas nada permanente ou substancial é sugerido. Reverso: Desejo, vontade, determinação, projeto.

Há alguns surgiu, principalmente a partir de fóruns na internet, um movimento em busca da criação de uma novo diagnóstico chamado Devaneio Excessivo Mal Adaptado (em inglês, Maladaptive Daydreaming). Uma comunidade de pessoas que se afirmam presas em seus devaneios e fantasias, demandando a criação de um diagnóstico psiquiátrico para chamar de seu, e que hoje contam com pelo menos um campeão na figura do Dr. Eli Somer, da Universidade de Haifa, em Israel. Não me perguntem por que sei disso.

Quando Edward Waite escreve, em seu guia, que o Sete de Copas corresponde ao “presente das fadas”, precisamos entender o que ele quer dizer com isso, do ponto de vista de um homem inglês do seu tempo. Ao ouvir “presente das fadas” podemos pensar nos dons das fadas madrinhas, ou na capacidade de Sininho de fazer voar as crianças em torno de Peter Pan. Mas na mitologia inglesa a que se refere Waite, esse presente das fadas não é um presente, mas uma fatalidade, um aprisionamento do indivíduo encantado – todos sabem disso, se você topar com as fadas, se observar seu banho e for surpreendido, nunca mais poderá voltar de seu mundo. E só faz sentido que hoje pensemos nas fadas como criaturas maravilhosas, em cujo mundo seria desejável viver, e que exista um movimento de pessoas exasperadas com sua incapacidade de permanecer na realidade, em uma época como a nossa, onde o espectro da ilusão de repente ficou tão inflado. O preço de viver no mundo das fadas é a própria vida, porque não é vida aquilo que ali se vive, mas imagens flutuando numa nuvem.

O elemento do Sete de Copas é a água.

Rui Xavier

Tarot: o Diabo

do tarot Rider Waite

A carta 15 é a carta do Diabo. Que quer dizer essa carta? Todos sabem quem é o diabo, e, principalmente, o que é o diabo. No entanto, diz-se que uma carta de tarot nunca é inteiramente negativa ou positiva, que toda carta emana uma luz e projeta uma sombra… mas e no caso do Príncipe das Trevas?

Será o diabo uma figura ambígua? Como pode o diabo ser ambíguo? O diabo é, afinal, o Mal, o Adversário, a entidade que os cristãos inflaram de importância para competir com o Arimã, o deus maléfico dos masdeístas, uma criatura de absoluto pecado. Desenhado nos tarots antigos tinha um par de seios murchos, um rosto na barriga, olhos nos joelhos, patas de leão e genitália hermafrodita; o diabo de sombrias catequeses. Não seria difícil imaginar, principalmente vendo o destino do Bateleur da carta número 1, um desenho alternativo que reinventasse esse diabo como um charmoso Lúcifer art-noveau, mas não foi esse o caminho escolhido por Arthur Waite e Pamela Smith em seu famoso tarot, onde o diabo aparece, segundo o próprio Waite, na forma do “Bode de Mendes”, ou seja, o Bode Sabático, ou Baphomet – este famoso equívoco de Eliphas Levi – influente a ponto de hoje, mais de um século meio depois da publicação do seu Dogma e Ritual da Alta Magia, adornar aquele Templo Satânico em Massachusetts, cuja religião ninguém compreende se é ou não uma piada.

Ao diabo estão presas duas figuras, um masculina e outra feminina, são vagamente humanas, vagamente animalescas, vagamente demoníacas. No deck de Marselha têm galhadas de veado na cabeça. No tarot Rider Waite esses foram substituídos por chifrinhos de diabo mais convencionais, mas o homem ganhou uma chama na ponta do seu rabo, enquanto a mulher ganhou um cacho de uvas. As correntes que os prendem ao altar do demônio, também, ficaram visivelmente frouxa, para mostrar que esses escravos poderiam a qualquer momento libertar-se.

A carta do Diabo é a carta do diabo. Todos sabem quem é o diabo. Todos mundo sabe qual é o domínio do diabo, onde ele te leva quando te cavalga, para quais excessos, para quais caminhos circulares, a que altares te prende essa frouxa corrente. Assim muitos descreverão a carta de número quinze, cuja mensagem é abrir nosso olhos para a criatura das trevas e evitar seu abraço. Em uma consulta, segundo o manual de Waite, o Diabo também pode dizer violência, ódio, veemência, força, esforços extraordinários, fatalidade ou predestinação. De ponta cabeça, pode querer dizer a tragédia, a fraqueza, a mesquinhez, a cegueira. Alguns adivinhos dizem que o Diabo pode querer dizer dinheiro, mas isso é o que muitas pessoas querem ouvir.

Todo mundo conhece o diabo. Todo mundo tem medo do inferno, em algum recesso do inconsciente, e todos temos, nesses mesmos recessos, o nosso inferno pessoal fabricado sob medida. Não há, no entanto, quem não reconheça e deseje as qualidades do diabo, o seu dom de rebelar-se, sua força, sua capacidade de seduzir, seu dom de se exceder. Supõe-se, se semelhante personagem foi parido pela ordem cósmica, que o diabo precise existir.

Em certos desenhos (como no Baphomet original de Levi), esse diabo se faz acompanhar pelo símbolo de Mercúrio, também ele um emissário celeste.

Rui Xavier

Caso da Infância

Erika Sanada

Quando eu era criança, em uma tarde insignificante, comi certo animal, e isso passou a me definir mais que qualquer outra coisa. Minha mãe, funcionária pública, me levava para o trabalho, por motivos fáceis de imaginar.  No prédio havia um jardim. Era uma tripa de terra com árvores plantadas nela, mas, guardadas as proporções, era um jardim. Ali vi o bicho, totalmente abandonado ao próprio peso, esparramado ao pé de uma árvore, lindo como uma jóia. Entendi que estava morto. A morte era uma efervescente camada de contradição cobrindo sua beleza. Se aproximou minha mãe, ameaçando me encher de perguntas que eu não saberia responder. Então, antes que visse o animal, eu o comi.

Não foi muito depois de comer o animal, talvez no banco detrás do carro, que percebi que estava vivo. Não se debateu (não naquele momento), mas ajeitou seu peso no centro do meu ventre, apenas para dizer que estava lá. Jamais que eu iria contar semelhante coisa aos adultos, então deixei-o ali.

Não sei determinar, passados tantos anos, a extensão de sua influência sobre mim. Creio que o animal cresceu comigo, pois não o senti diminuir ao longo dos anos, mas não diria que aumentou. Ele se expande e se retrai, às vezes se agita. Às vezes é feroz como uma úlcera, mas há quem sofra pior. Não sei dizer se se alimenta de mim, como parasita, ou se simplesmente dividimos o meu corpo. Ele tem, certamente, suas preferências, seus pontos de vista, mas não é fácil divisar exatamente o que é dele e o que é meu, e sua voz fala dentro de mim a tal ponto que já a escuto como a minha própria.

 Como concedem os médicos mais esclarecidos, em certas condições crônicas o negócio é deixar tudo como está. Eu não ousaria tentar remover o animal a essa altura, vai lá saber que tipo de adaptação sua presença já fez no meu metabolismo. Mas tenho tentado uma coisa nova (que talvez salve minha vida), algo que uma senhora me sugeriu: tenho cantado para ele dormir. É quando tenho algum de sossego.

 Rui Xavier

As Línguas

Oscar Delmar

Gosto bastante de idiomas. Embora eu seja vagabundo demais para ser verdadeiramente poliglota, eu costumo me relacionar cotidianamente com pelo menos quatro idiomas, incluído o meu. A língua estrangeira em que realmente domino as quatro habilidades (ouvir, ler, falar, escrever) de forma fluente é o inglês (idioma em que mergulhei durante anos e anos de compulsão digital). No francês estou perto, leio com tranquilidade, mas preciso de uma dicção profissional como a dos jornalistas e dos professores para entender o que está sendo dito. E depois a nossa língua gêmea, o espanhol, que leio e entendo com bastante facilidade, mas que não ousaria dizer que sei falar.

Uma das principais graças de aprender línguas é a maneira como elas se conectam. É um pouco natural que aprendamos os idiomas por suas famílias, e que, quanto mais idiomas você conhece, mais fácil seja aprender. Os idiomas herdeiros do latim (o português, espanhol, francês, italiano e o romeno, para ficar em grandes línguas nacionais) todos compartilham um vasto vocabulário semelhante. E às vezes a semelhança está lá mesmo quando não a enxergamos de primeira. Hoje, por exemplo, pela primeira vez enxerguei a familiaridade de uma palavra francesa, chiffre. É uma palavra cujo significado demorei para guardar, e que sempre me soou estranha, por ser exatamente igual ao nosso chifre (guardado o som característico do r deles), mas significar número. Hoje de manhã, lendo um artigo em francês, cruzei com a palavra dechiffrer… Decifrar. E aí me dei conta que chiffre, essa palavra que me soava tão exótica, é a mesma palavra nossa: cifra. Vou procurar e confirmo que, de fato, elas compartilham a mesma origem – a palavra árabe para zero: cifr, que os ocidentais passaram a usar como sinônima dos numerais arábicos. O árabe não é uma língua latina, mas como poderíamos excluí-la dessa mesa familiar, se a península ibérica falou árabe por um período mais extenso que a história do Brasil até agora? O português e o espanhol – duas línguas tão parecidas que vistas de fora parecem dois dialetos do mesmo idioma – têm inúmeras palavras vindas do árabe: se uma palavra é começada com al, como alface e almofada, as chances dela ser de origem árabe são muito grandes (claro, com exceções), mas, como o caso da cifra nos mostra, não só essas. O inglês também, com sua longa história compartilhada com a França, faz parte de maneira indireta dessa família – sem os séculos de influência francesa, dizem, o inglês seria muito mais parecido com o alemão (um idioma que nós latinos apanhamos para aprender).

Esses são só dois exemplos de como os idiomas carregam História. Quem já se passou algum tempo procurando origens das palavras sabe as revelações surpreendentes que elas podem trazer, sobre mudanças e sobre permanências. Palavras que trazem o testemunho das divisões sociais dos povos: no inglês, por exemplo, usam-se termos diferentes para o bicho vivo e para designar sua carne; assim, o porco vivo é pig, mas sua carne é pork; a vaca (cow) ou boi (bull), uma vez na mesa transformam-se em beef, e a ovelha  que é sheep se torna mutton. Isso se remete às divisões sociais criadas na invasão normanda da Inglaterra, lá longe em 1066, inaugurando um período em que a elite na Inglaterra falava francês e os dominados falavam o idioma saxão. Ali no comércio das palavras, as francesas prevaleceram no reino da culinária (porc, boeuf, mouton), e as saxãs nos estábulos.

A divisão social entre normandos e saxões não existe mais, mas outras palavras oferecem testemunho de conflitos ainda muito presentes, como certos pares de sinônimos no português brasileiro, onde as expressões de origem portuguesa são consideradas mais formais e educadas (como nádegas e garoto) em relação às de origem africana (como bunda e moleque). Mas as palavras africanas, trazidas à força para essa família, são inúmeras no português, e nem todas mostram com clareza a marca dessa divisão. Algumas são fáceis de adivinhar, por estarem mais visivelmente associadas à cultura negra, como quilombo, macumba, os nomes dos instrumentos afro-brasileiros como berimbau e ganzá, além do vasto vocabulário da culinária afro-brasileira, com acarajé, quiabo, dendê, etc, etc, etc. Outras são menos óbvias, embora se perceba nelas todas um certo sabor sonoro: cafuné (talvez minha palavra favorita), caçula, marimbondo.

 Uma das graças de saber mais de um idioma é ficar fazendo esses fios de cognatos, que juntam e separam as palavras e idiomas, saber que cerveja, por exemplo, é birra, beer e bière (em italiano, inglês e francês, respectivamente), por causa do verbo bibere em latim (de bebida, beber), e que a cerveja e a cerveza que dividimos com o espanhol vem de outro canto do latim, que deve à deusa Ceres a cerveja e o cereal. Os cognatos (palavras de diferentes idiomas iguais ou parecidas com os mesmos significados) ajudam, mas também atrapalham, porque muitos deles são falsos cognatos (palavras de diferentes idiomas iguais ou parecidas, mas com significados diferentes). E uma semelhança muito grande, como entre o português e o espanhol, é uma coisa que pode ficar bastante confusa. Acho que essa é a razão pela qual eu acho tão difícil guardar o vocabulário em espanhol, é tudo tão parecido, e tantas coisas são iguais, que o cérebro quer adivinhar no lugar de memorizar as palavras, daí o portunhol. Eu já li romances inteiros em espanhol, sigo youtubers latino americanos, etc, e ainda assim, se por acaso tento falar, nunca estou seguro de não estar inventando metade das palavras em algum tipo de portunhol (claro, se eu realmente quisesse poderia estudar, mas comecei esse texto confessando que era vagabundo). Outra coisa que já ouvi, por exemplo, de pessoas que estudam espanhol e italiano é que é difícil não misturar os dois.

Não tenho muito mais o que acrescentar à essa singela demonstração de cultura inútil e exibicionismo. Fiquei contente com meu pequeno momento de compreensão pela manhã, com a historinha da palavra chiffre, e senti vontade de contar. Não deixa de ser, na situação em que estamos, uma forma celebrar essa espécie de prazer que é ainda é a última que alguém pode nos roubar, o prazer de procurar e de entender, que existe dentro de nossos cérebros e não depende de nada mais.  

Rui Xavier

General Pazuello

Compartilho aqui no blog esse cartaz que fiz em “homenagem” ao General Pazuello. Ao saber a respeito dos esforços do governo para esconder o número dos mortos pensei: “um filho da puta desse tem que ter seu próprio cartaz”. Hesitei por um instante antes de colocar na faixa escrita na bandeira a palavra “genocida”. Mas o que outra qualificação merecem todos os sócios desse genocídio? Lá em cima, onde se movimenta a artilharia pesada, já entraram com denúncia no Tribunal de Haia. Eu, coitado de mim, sofro e faço cartazes.

Rui Xavier