
No baralho Rider Waite assim é o Sete de Copas: De costas para nós, um homem admira sete copas de ouro que flutuam diante dele como uma miragem, apoiadas em uma nuvem. Da taça mais alta de todas, posicionada no canto direito, sai uma serpente que põe pra fora sua língua bífida; sobre a taça um pouco abaixo dela, no canto direito, flutua uma cabeça de mulher, provavelmente atraente, e entre essas duas taças, e um pouco abaixo de ambas, dominando o centro do arranjo, está aquela que abriga uma curiosa figura humana, de braços abertos, coberta por um lençol como uma assombração e exibindo um halo vermelho. Abaixo, completando as sete copas, estão quatro taças alinhadas, cada uma delas portando, da esquerda para a direita: uma pequena fortaleza com esguias torres no topo de uma rocha, uma pilha de jóias, uma coroa de louros e um dragão. O homem tem uma mão suspensa no ar, sua atitude é tensa. Essa nuvem sonhos o paralisa e exaspera.
O Sete de Copas é a carta das ilusões, das fantasias, do devaneio. É a carta dos ‘castelos no ar’. Se você tem muitos projetos irrealizáveis, se você sonha ardentemente com futuros fora do seu alcance, se você guarda dentro de si um carrossel de devaneios com que pode gastar horas e quem sabe a vida inteira, então essa carta tem algo a te dizer.
Sua simbologia é bastante explícita; com a pilha de jóias, a torre flutuante, a coroa de César. É considerada também uma carta da tentação – aí estão a mulher e a serpente, afinal, em posição destacada. O dragão se alinha com as riquezas e ambições de poder, talvez inseparável delas.
Resta entender a figura fantasmagórica. Ela é mágica, brilha, e está oculta. Será ela aquilo que é preciso revelar? Será ela o elemento de uma revelação possível, de alguma transcendência, em uma carta que até agora é só miragem? A Chave Pictórica do Tarot que Waite publicou junto com seu baralho, não nos dá muita esperança:
Sete de Copas: Estranhos cálices de visões, mas as imagens são especialmente aquelas do espírito fantástico. Significados divinatórios: o presente das fadas, imagens refletidas, sentimento, imaginação, coisas vistas no vidro da contemplação; alguma realização nesses graus, mas nada permanente ou substancial é sugerido. Reverso: Desejo, vontade, determinação, projeto.
Há alguns surgiu, principalmente a partir de fóruns na internet, um movimento em busca da criação de uma novo diagnóstico chamado Devaneio Excessivo Mal Adaptado (em inglês, Maladaptive Daydreaming). Uma comunidade de pessoas que se afirmam presas em seus devaneios e fantasias, demandando a criação de um diagnóstico psiquiátrico para chamar de seu, e que hoje contam com pelo menos um campeão na figura do Dr. Eli Somer, da Universidade de Haifa, em Israel. Não me perguntem por que sei disso.
Quando Edward Waite escreve, em seu guia, que o Sete de Copas corresponde ao “presente das fadas”, precisamos entender o que ele quer dizer com isso, do ponto de vista de um homem inglês do seu tempo. Ao ouvir “presente das fadas” podemos pensar nos dons das fadas madrinhas, ou na capacidade de Sininho de fazer voar as crianças em torno de Peter Pan. Mas na mitologia inglesa a que se refere Waite, esse presente das fadas não é um presente, mas uma fatalidade, um aprisionamento do indivíduo encantado – todos sabem disso, se você topar com as fadas, se observar seu banho e for surpreendido, nunca mais poderá voltar de seu mundo. E só faz sentido que hoje pensemos nas fadas como criaturas maravilhosas, em cujo mundo seria desejável viver, e que exista um movimento de pessoas exasperadas com sua incapacidade de permanecer na realidade, em uma época como a nossa, onde o espectro da ilusão de repente ficou tão inflado. O preço de viver no mundo das fadas é a própria vida, porque não é vida aquilo que ali se vive, mas imagens flutuando numa nuvem.
O elemento do Sete de Copas é a água.
Rui Xavier
