Caso da Infância

Erika Sanada

Quando eu era criança, em uma tarde insignificante, comi certo animal, e isso passou a me definir mais que qualquer outra coisa. Minha mãe, funcionária pública, me levava para o trabalho, por motivos fáceis de imaginar.  No prédio havia um jardim. Era uma tripa de terra com árvores plantadas nela, mas, guardadas as proporções, era um jardim. Ali vi o bicho, totalmente abandonado ao próprio peso, esparramado ao pé de uma árvore, lindo como uma jóia. Entendi que estava morto. A morte era uma efervescente camada de contradição cobrindo sua beleza. Se aproximou minha mãe, ameaçando me encher de perguntas que eu não saberia responder. Então, antes que visse o animal, eu o comi.

Não foi muito depois de comer o animal, talvez no banco detrás do carro, que percebi que estava vivo. Não se debateu (não naquele momento), mas ajeitou seu peso no centro do meu ventre, apenas para dizer que estava lá. Jamais que eu iria contar semelhante coisa aos adultos, então deixei-o ali.

Não sei determinar, passados tantos anos, a extensão de sua influência sobre mim. Creio que o animal cresceu comigo, pois não o senti diminuir ao longo dos anos, mas não diria que aumentou. Ele se expande e se retrai, às vezes se agita. Às vezes é feroz como uma úlcera, mas há quem sofra pior. Não sei dizer se se alimenta de mim, como parasita, ou se simplesmente dividimos o meu corpo. Ele tem, certamente, suas preferências, seus pontos de vista, mas não é fácil divisar exatamente o que é dele e o que é meu, e sua voz fala dentro de mim a tal ponto que já a escuto como a minha própria.

 Como concedem os médicos mais esclarecidos, em certas condições crônicas o negócio é deixar tudo como está. Eu não ousaria tentar remover o animal a essa altura, vai lá saber que tipo de adaptação sua presença já fez no meu metabolismo. Mas tenho tentado uma coisa nova (que talvez salve minha vida), algo que uma senhora me sugeriu: tenho cantado para ele dormir. É quando tenho algum de sossego.

 Rui Xavier

Teoria do Apego

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Jean Michel Basquiat

Lendo psicologia; Teoria do Apego (Bowlby, Ainsworth e cia), à volta a névoa informativa dos meus sonhos. Alguém te disse, em sua infância, que havia algo de errado com você, e por isso essa pequena nuvem negra se apegou à sua cabeça, a nuvenzinha negra de criatura de cartum exatamente do tamanho do teu côco, casmurra, chovendo nos melhores piqueniques. Alguém na aurora da sua vida, debaixo das bananeiras, à sombra dos laranjais, te informou a respeito da sua essencial insuficiência, e por isso o parasita em teu estômago, a taturana famélica em sua língua, o demoninho no seu peito vindo de algum catecismo medievo, de um bestiário de arcaicas tias mineiras,  vindo do tempo de uma Grande Fome – é por isso que essa fome não passa, porque está naquele tempo, a fome que você tenta saciar é uma memória, aquilo que você quer evitar já aconteceu. Porque naquele momento foi preciso, quando nenhum recurso era seu, negociar pelo amor, argumentar por ele e prová-lo, como quem negocia com o captor a própria vida, é natural que agora o amor te saiba contaminado por esse medo, por essa angústia, essa desconfiança subterrânea. São marcas na tua fôrma, a ortopedia no teu tronco desde a muda. E não existe pôr em pratos limpos. Há um tirano a porta desse esterco; que Alfeu de águas frias, que ligeiro Peneu para lavá-lo? Ninguém escolhe a própria cara, a própria altura, ninguém escolhe como passa o cativeiro da infância. As cartas dada pelo ontem, na realidade, o vento já levou. O que existe agora é o hoje. E hoje, o trabalho do amanhã.

Rui Xavier

Apontamentos Sobre a Pessoa que Eu Quero Ser

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Francisco de Zurbarán

Eu quero continuar bebendo bastante, mas nunca mais de tédio ou de ansiedade. Eu quero ser o tipo de pessoa que se lembra de passar protetor solar. Eu quero ser o tipo de pessoa que não transforma prazeres em dívidas, que não transforma ideias em dívidas, nem esperanças, quero ser o tipo de pessoa que não enxerga uma dívida a não ser que a coisa seja de fato, inequivocamente, uma dívida. Eu quero ser o tipo de pessoa que paga suas dívidas. Eu quero ser uma pessoa que se move, mas sem que isso implique ser cego para todas as coisas que me movem, e não dependem da minha participação. Eu quero ser capaz de fazer um hábito de toda a profilaxia necessária. Quero parar de dar de graça a única coisa que eu tenho pra vender. Eu quero ser capaz de estar em dúvida, de permanecer sentado sobre a dúvida, equilibrado sobre a dúvida como sobre uma bicicleta, sem precisar todas as vezes resolvê-la, seguindo só, seguindo. Eu quero dizer muito mais sim. Eu quero dizer muito mais não. Queria voltar a ler como na infância (mas talvez isso seja pedir demais). Eu quero poder ser útil. Eu quero saber ser falto. Eu quero ter o sentido da participação, antes de tudo o sentido da participação, mais do que qualquer coisa o sentido da participação. Eu quero guardar os nomes das pessoas e depois chama-las sempre pelo nome, saber ser amável sem sentir a ansiedade de ser amado. Eu quero não ter sempre que ver o fundo. Eu quero sentir vontade de tudo aquilo que preciso. O que preciso, quero ser capaz de fazer sem ter vontade. Eu quero querer tudo o que eu quero. E quero também saber a diferença que existe entre isso, e aquilo que eu somente queria querer.

Rui Xavier

Um Texto Que Não Sei Escrever

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Kate MccGwire

Eu queria escrever um texto que fosse assim como um acorde de fá sustenido com sétima, um texto que fosse assim como o suor escorrendo de uma barriga, que fosse assim como um determinado tom de vermelho, muito denso, tenso e sóbrio, que vi uma vez em uma exposição na Pinacoteca da Luz (eram quadros da belle époque… de quem era esse vermelho?). Eu quase sei como seria esse texto. Sei precisamente como ele deslizaria, insinuante, com um claro atributo de serpente (mas mais macio e sem o risco da peçonha) durante todo primeiro parágrafo, para depois ganhar uma temperatura muito mais metálica, aquela clareza franca e precisa de um gosto cítrico, em um parágrafo curto e crescente que terminasse em duas linhas todas feitas de elementos ágeis, com pulinhos de pássaros e um tilintar de bicicletas com sininhos, antes de se afogar como vinho em um longo parágrafo final, um parágrafo bojudo, enfunado como uma vela, saturado de elementos aromáticos, com um tempo de mel e de cetáceos e a gravidade de dois corpos na modorra da mesma cama, às oito e quarenta e cinco da manhã, quando não há nenhum lugar para ir e o despertar é lento.

Eu quase sei como seria esse texto. Tenho bem claro os ritmos e os efeitos, sinto sua pressão em minha língua como se já fosse capaz de dizê-lo, é um texto que sinto pronto dentro de mim, pronto como o gesto de um arqueiro, conhecido como o corpo da mulher que eu amo, nítido como a fruta favorita. Não falta quase nada. Faltam só as palavras.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira 

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