
Quando eu era criança, em uma tarde insignificante, comi certo animal, e isso passou a me definir mais que qualquer outra coisa. Minha mãe, funcionária pública, me levava para o trabalho, por motivos fáceis de imaginar. No prédio havia um jardim. Era uma tripa de terra com árvores plantadas nela, mas, guardadas as proporções, era um jardim. Ali vi o bicho, totalmente abandonado ao próprio peso, esparramado ao pé de uma árvore, lindo como uma jóia. Entendi que estava morto. A morte era uma efervescente camada de contradição cobrindo sua beleza. Se aproximou minha mãe, ameaçando me encher de perguntas que eu não saberia responder. Então, antes que visse o animal, eu o comi.
Não foi muito depois de comer o animal, talvez no banco detrás do carro, que percebi que estava vivo. Não se debateu (não naquele momento), mas ajeitou seu peso no centro do meu ventre, apenas para dizer que estava lá. Jamais que eu iria contar semelhante coisa aos adultos, então deixei-o ali.
Não sei determinar, passados tantos anos, a extensão de sua influência sobre mim. Creio que o animal cresceu comigo, pois não o senti diminuir ao longo dos anos, mas não diria que aumentou. Ele se expande e se retrai, às vezes se agita. Às vezes é feroz como uma úlcera, mas há quem sofra pior. Não sei dizer se se alimenta de mim, como parasita, ou se simplesmente dividimos o meu corpo. Ele tem, certamente, suas preferências, seus pontos de vista, mas não é fácil divisar exatamente o que é dele e o que é meu, e sua voz fala dentro de mim a tal ponto que já a escuto como a minha própria.
Como concedem os médicos mais esclarecidos, em certas condições crônicas o negócio é deixar tudo como está. Eu não ousaria tentar remover o animal a essa altura, vai lá saber que tipo de adaptação sua presença já fez no meu metabolismo. Mas tenho tentado uma coisa nova (que talvez salve minha vida), algo que uma senhora me sugeriu: tenho cantado para ele dormir. É quando tenho algum de sossego.
Rui Xavier


