O QUE É A BONDADE?

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Andres Serrano

publicado originalmente no dia 27 de junho de 2017

Afinal, o que é a bondade? Que tipo de emoção é a bondade? Me pergunto se a bondade pode ser um prazer. Muitos de nós gostaríamos de achar que é. Mas se a bondade fosse um prazer, ela seria diversão, e não bondade. Não a bondade como o estado genérico de uma pessoa genericamente boa, essa bondade sim, pode ser alegre, e em geral é. Essa outra bondade, ela existe, ainda bem que ela existe, e é uma das colas que seguram inteiro o mundo, mas não é dela que falo, porque ela também é um gato gordo e acomodado, é bem alimentado e pode ser alegre. É ao gesto de bondade a que me refiro, o exercício ativo, ao esforço da bondade. A bondade precisa ser uma aflição, um incômodo, pois senão como se dar ao trabalho penoso e improdutivo da bondade? A miséria humana sempre se renova. Ela bate em ondas à porta exausta das nossas magras reservas de bondade.

Qualquer pedinte sabe disso: a bondade precisa ser uma forma de constrangimento. A bondade é uma forma de vergonha. A bondade se sente humilhada por não poder fazer mais, ela se recrimina do que deixou de fazer, ela enxerga injustiça em cada escolha; cada pedaço de pão que alguém come foi arrancado da boca de outra pessoa. Uma bondade satisfeita logo deixa de ser bondade, e é por isso que a mão esquerda não precisa saber do que a direita faz; porque sentir orgulho da bondade é já matá-la. Certas pessoas têm aversão a demonstrações muito públicas de bondade, e elas estão certas.

O exercício constante da bondade só pode se transformar em uma espécie de loucura, provavelmente autodestrutiva, provavelmente aniquilando o corpo, pelo esgotamento total dos seus recursos, pois as exigências da bondade são sem limites. É preciso que as instituições sejam boas justamente por isso, para que as pessoas não precisem ser, porque a bondade é uma paixão problemática, é uma dor que muitos querem evitar. Mesmo os que a desejam não a conseguem ter por muito tempo, seu exercício contínuo é impossível, a prática intermitente é difícil de regular.

Algumas pessoas são contra a bondade; dizem que é um remédio que prolonga a doença, um analgésico que mascara um mal fatal. Mas não é o veneno que nos mantém vivos? Não foi nesse tipo de sociedade que escolhemos viver? Quais são as alternativas? Nós podemos viver cheios de vergonha, mas os generais da Antiguidade tinham orgulho das suas pilhas de mortos. Por via das dúvidas é melhor sempre ouvi-la, aquela voz, o trêmulo ganido da bondade, sempre que o seu mal estar nos azeda os estômagos, nos para no meio do caminho e nos obriga a fazer alguma. Não é tanto porque o gesto de bondade consiga fazer de alguém uma pessoa boa, e nem porque consiga, de verdade, diminuir a quantidade de mal no mundo. É por outro motivo: porque a indiferença, ou a análise fria, também jamais se sustenta. É uma paixão insatisfatória. Tende a decair, depois de algum tempo, na prática franca do desamor e da violência; essa sim viciante, voraz, insaciável.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira

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