Eu Gosto de Discutir Ideias

Eu gosto de discutir ideias, e até acho que tenho algumas que podem interessar a outras pessoas, ideias mais ou menos elaboradas sobre os mais variados temas, coisas sobre a vida, o mundo, as leis, as artes, o dinheiro e a ciência, deus e a humanidade. Mas uma dificuldade me desanima. É uma das muitas coisas erradas que eu aprendi na infância: a intelectualidade competitiva, o desejo de vencer na discussão… e sua contrapartida, o pavor da falar uma bobagem muito grande, de ser humilhado. E também, mordendo do outro lado, uma tensão excessiva produzida por qualquer conflito, mesmo os pequeninos. Eu gosto de discutir ideias, mas acabo sempre pendendo para meus textos de ficção ou depoimentos. Quase não consigo me imaginar colaborando em certas questões espinhosas da nossa sociedade, nas quais eu teria sim algo a dizer, mas a perspectiva do debate me enche de desânimo. Seria fácil pôr a culpa na incivilidade do mundo online – e, claro, eu tenho medo dela também, mas a verdade é que mesmo o debate mínimo, e mesmo o civilizado, é o suficiente para despertar essas ondas de ansiedade. Eu gosto de discutir ideias, e elaboro longas argumentações em minha mente que nunca alcançam a página. E não tenho dúvida nenhuma de que, quando resolvo colocar essas coisas no papel, toda essa caca, esse peso, essa prudência, essa necessidade de ter razão, tudo isso transborda para o texto, que fica mais pesado, perde em fluidez, é inferior ao resto do meu trabalho. Eu gosto de discutir ideias, mas nunca aprendi a estar em um debate de ideias como em um jogo agradável de bola, ou como na construção de um entendimento comum – se aprendi foi superficialmente, no fundo do meu coração meu medo ainda é ser calado. Quem me conheceu mais novo vai se lembrar de mim como um debatedor irascível e exaltado. Não é que eu esteja totalmente acima desse comportamento agora, mas era algo que antes eu não enxergava, ou que, pior ainda, em algum momento imaginei que era uma qualidade. Eu gosto muito de debater ideias, mas com frequência debater ideias me faz mal. É algo que eu quero mudar. Quantas pessoas são como eu, acabam sonegando suas contribuições à massa do que pensa o mundo por causa desse aprendizado da inteligência como objeto contundente? É algo que quero melhorar. É verdade que o mundo, e a internet, está cheio de gente assim, que debate ideias de um modo violento e desagradável, ou então pedante, mas você não é obrigado a conversar com eles. A qualidade da conversa começa na escolha dos seus interlocutores. Quem escreve um texto começa imaginando o leitor, consciente ou inconscientemente. Eu quero ser capaz de debater ideias sem imaginar do outro lado alguém que deve ser vencido ou convencido. Deve ser possível debater ideias sem essa angústia de ter razão. Eu quero aprender esse idioma que ninguém me ensinou na infância. Eu gosto muito de debater ideias, e essa é uma verdadeira lacuna na minha vida. A arte é boa, mas tem seus limites. São funções diferentes mesmo. As ideias são secundárias na arte. Mas uma coisa não exclui a outra, você pode gostar das artes e das ideias. Só convém não acreditar tanto assim em nenhuma das duas, talvez. Mas já divago, divago. Enfim, não tenho mais muito a dizer, só a declaração desse gosto, e dessa dimensão meio tampada da minha vida. Eu gosto muito de debater ideias. Quem sabe eu consigo fazer mais disso.

Rui Xavier

As Línguas

Oscar Delmar

Gosto bastante de idiomas. Embora eu seja vagabundo demais para ser verdadeiramente poliglota, eu costumo me relacionar cotidianamente com pelo menos quatro idiomas, incluído o meu. A língua estrangeira em que realmente domino as quatro habilidades (ouvir, ler, falar, escrever) de forma fluente é o inglês (idioma em que mergulhei durante anos e anos de compulsão digital). No francês estou perto, leio com tranquilidade, mas preciso de uma dicção profissional como a dos jornalistas e dos professores para entender o que está sendo dito. E depois a nossa língua gêmea, o espanhol, que leio e entendo com bastante facilidade, mas que não ousaria dizer que sei falar.

Uma das principais graças de aprender línguas é a maneira como elas se conectam. É um pouco natural que aprendamos os idiomas por suas famílias, e que, quanto mais idiomas você conhece, mais fácil seja aprender. Os idiomas herdeiros do latim (o português, espanhol, francês, italiano e o romeno, para ficar em grandes línguas nacionais) todos compartilham um vasto vocabulário semelhante. E às vezes a semelhança está lá mesmo quando não a enxergamos de primeira. Hoje, por exemplo, pela primeira vez enxerguei a familiaridade de uma palavra francesa, chiffre. É uma palavra cujo significado demorei para guardar, e que sempre me soou estranha, por ser exatamente igual ao nosso chifre (guardado o som característico do r deles), mas significar número. Hoje de manhã, lendo um artigo em francês, cruzei com a palavra dechiffrer… Decifrar. E aí me dei conta que chiffre, essa palavra que me soava tão exótica, é a mesma palavra nossa: cifra. Vou procurar e confirmo que, de fato, elas compartilham a mesma origem – a palavra árabe para zero: cifr, que os ocidentais passaram a usar como sinônima dos numerais arábicos. O árabe não é uma língua latina, mas como poderíamos excluí-la dessa mesa familiar, se a península ibérica falou árabe por um período mais extenso que a história do Brasil até agora? O português e o espanhol – duas línguas tão parecidas que vistas de fora parecem dois dialetos do mesmo idioma – têm inúmeras palavras vindas do árabe: se uma palavra é começada com al, como alface e almofada, as chances dela ser de origem árabe são muito grandes (claro, com exceções), mas, como o caso da cifra nos mostra, não só essas. O inglês também, com sua longa história compartilhada com a França, faz parte de maneira indireta dessa família – sem os séculos de influência francesa, dizem, o inglês seria muito mais parecido com o alemão (um idioma que nós latinos apanhamos para aprender).

Esses são só dois exemplos de como os idiomas carregam História. Quem já se passou algum tempo procurando origens das palavras sabe as revelações surpreendentes que elas podem trazer, sobre mudanças e sobre permanências. Palavras que trazem o testemunho das divisões sociais dos povos: no inglês, por exemplo, usam-se termos diferentes para o bicho vivo e para designar sua carne; assim, o porco vivo é pig, mas sua carne é pork; a vaca (cow) ou boi (bull), uma vez na mesa transformam-se em beef, e a ovelha  que é sheep se torna mutton. Isso se remete às divisões sociais criadas na invasão normanda da Inglaterra, lá longe em 1066, inaugurando um período em que a elite na Inglaterra falava francês e os dominados falavam o idioma saxão. Ali no comércio das palavras, as francesas prevaleceram no reino da culinária (porc, boeuf, mouton), e as saxãs nos estábulos.

A divisão social entre normandos e saxões não existe mais, mas outras palavras oferecem testemunho de conflitos ainda muito presentes, como certos pares de sinônimos no português brasileiro, onde as expressões de origem portuguesa são consideradas mais formais e educadas (como nádegas e garoto) em relação às de origem africana (como bunda e moleque). Mas as palavras africanas, trazidas à força para essa família, são inúmeras no português, e nem todas mostram com clareza a marca dessa divisão. Algumas são fáceis de adivinhar, por estarem mais visivelmente associadas à cultura negra, como quilombo, macumba, os nomes dos instrumentos afro-brasileiros como berimbau e ganzá, além do vasto vocabulário da culinária afro-brasileira, com acarajé, quiabo, dendê, etc, etc, etc. Outras são menos óbvias, embora se perceba nelas todas um certo sabor sonoro: cafuné (talvez minha palavra favorita), caçula, marimbondo.

 Uma das graças de saber mais de um idioma é ficar fazendo esses fios de cognatos, que juntam e separam as palavras e idiomas, saber que cerveja, por exemplo, é birra, beer e bière (em italiano, inglês e francês, respectivamente), por causa do verbo bibere em latim (de bebida, beber), e que a cerveja e a cerveza que dividimos com o espanhol vem de outro canto do latim, que deve à deusa Ceres a cerveja e o cereal. Os cognatos (palavras de diferentes idiomas iguais ou parecidas com os mesmos significados) ajudam, mas também atrapalham, porque muitos deles são falsos cognatos (palavras de diferentes idiomas iguais ou parecidas, mas com significados diferentes). E uma semelhança muito grande, como entre o português e o espanhol, é uma coisa que pode ficar bastante confusa. Acho que essa é a razão pela qual eu acho tão difícil guardar o vocabulário em espanhol, é tudo tão parecido, e tantas coisas são iguais, que o cérebro quer adivinhar no lugar de memorizar as palavras, daí o portunhol. Eu já li romances inteiros em espanhol, sigo youtubers latino americanos, etc, e ainda assim, se por acaso tento falar, nunca estou seguro de não estar inventando metade das palavras em algum tipo de portunhol (claro, se eu realmente quisesse poderia estudar, mas comecei esse texto confessando que era vagabundo). Outra coisa que já ouvi, por exemplo, de pessoas que estudam espanhol e italiano é que é difícil não misturar os dois.

Não tenho muito mais o que acrescentar à essa singela demonstração de cultura inútil e exibicionismo. Fiquei contente com meu pequeno momento de compreensão pela manhã, com a historinha da palavra chiffre, e senti vontade de contar. Não deixa de ser, na situação em que estamos, uma forma celebrar essa espécie de prazer que é ainda é a última que alguém pode nos roubar, o prazer de procurar e de entender, que existe dentro de nossos cérebros e não depende de nada mais.  

Rui Xavier

O Ourives do Palavreado

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Eu ando muito atarantado, então não consegui escrever antes, mas preciso muito dar meus dois centavos sobre o Aldir Blanc… meu óbolo para sua travessia (não que ele precise, claro, quem precisa sou eu). O Aldir é um dos meus heróis literários, um dos poetas que me formaram, que me ensinaram (e me ensinam) não só a escrever, mas a sentir.

Como as pessoas da minha geração e que cresceram, como eu, no culto da grande MPB, conheci as músicas do Aldir Blanc de nascença, as parcerias com João Bosco, o “hino da abertura”. Inicialmente, como muitos, sem saber que eram dele. Mas, para minha sorte, eu ainda era garoto quando fui devidamente apresentado à obra, soube quem ele era e me apaixonei por suas canções. Isso se deu a partir deste álbum de 96, gravado em comemoração dos seus 50 anos. Em 1996 eu tinha onze anos. Não tenho certeza de que tenha chegado a mim no ano do seu lançamento, mas se não foi isso foi pouco depois. É um trabalho simplesmente primoroso, cheio de canções que incendiaram minha imaginação para a vida toda. Ouvindo hoje, vi que ainda sei tudo de cor.

Blanc unia em sua poesia o máximo do lirismo e da sofisticação, e em seguida toda liberdade do sarro e da informalidade máxima. A curadoria das músicas deste disco faz uma curva muito inteligente, do lirismo para o sarro e de volta para o lirismo. Aí que, na mesma experiência, vamos de “o Dunga vai te dar a cobertura / Esse é bandido jóia e cana dura, / chegado num pagode com morena, sangue bom, é meu bróder”, no samba Negão das Paradas, para “O pó das asas sobre as rosas / Que o fauno à luz da lua pisa, espectral. / Meio-dia e já é meia-noite / E a sombra do que amei me tira pra dançar / Em mãos irmãs”, em Crescente Fértil, numa bela parceria com Ed Motta. Não é uma maravilha ter aprendido poesia assim?

 Ao Aldir Blanc devo uma vida de gratidão. Toda minha geração deve uma vida de gratidão à sua. Sua morte se sente simbólica, como foi a morte de João, numa hora sinistra como essa. Adoraria acreditar em alma eterna, para achar que ele segue compondo, em planos etéreos, em novas parcerias com os grandes do nosso passado. Não acredito, infelizmente. Guardemos a nós mesmos a tarefa de eternizar suas canções.

Rui Xavier

Abaixo colo o link do album  a que me refiro:

Teoria do Apego

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Jean Michel Basquiat

Lendo psicologia; Teoria do Apego (Bowlby, Ainsworth e cia), à volta a névoa informativa dos meus sonhos. Alguém te disse, em sua infância, que havia algo de errado com você, e por isso essa pequena nuvem negra se apegou à sua cabeça, a nuvenzinha negra de criatura de cartum exatamente do tamanho do teu côco, casmurra, chovendo nos melhores piqueniques. Alguém na aurora da sua vida, debaixo das bananeiras, à sombra dos laranjais, te informou a respeito da sua essencial insuficiência, e por isso o parasita em teu estômago, a taturana famélica em sua língua, o demoninho no seu peito vindo de algum catecismo medievo, de um bestiário de arcaicas tias mineiras,  vindo do tempo de uma Grande Fome – é por isso que essa fome não passa, porque está naquele tempo, a fome que você tenta saciar é uma memória, aquilo que você quer evitar já aconteceu. Porque naquele momento foi preciso, quando nenhum recurso era seu, negociar pelo amor, argumentar por ele e prová-lo, como quem negocia com o captor a própria vida, é natural que agora o amor te saiba contaminado por esse medo, por essa angústia, essa desconfiança subterrânea. São marcas na tua fôrma, a ortopedia no teu tronco desde a muda. E não existe pôr em pratos limpos. Há um tirano a porta desse esterco; que Alfeu de águas frias, que ligeiro Peneu para lavá-lo? Ninguém escolhe a própria cara, a própria altura, ninguém escolhe como passa o cativeiro da infância. As cartas dada pelo ontem, na realidade, o vento já levou. O que existe agora é o hoje. E hoje, o trabalho do amanhã.

Rui Xavier

Lendo Poesia

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Zezão

Alguns poetas dizem a mesma coisa em todos os seus poemas, e passam a vida dizendo essa única coisa. Outros poetas dizem muitas coisas, e cada poema seu diz uma coisa diferente. E existem também, é claro, todos outros, no meio das duas pontas desse espectro. Manoel de Barros é um exemplo de um poeta que diz sempre a mesma coisa em todos os poemas. Me parece que Bukowski disse muito a mesma coisa, mas acho que no fim da carreira encontrou mais uma ou duas. Fernando Pessoa tinha muitas coisas a dizer, mas optou por dividi-las entre suas personas literárias fictícias, dando uma dessas coisas para cada uma (eu não li tanto Pessoa assim, mas afirmo sem medo de errar que pelo menos o Álvaro de Campos diz sempre a mesma coisa). Carlos Drummond de Andrade é um poeta que diz muitas coisas, e Szymborska, só naquele livrinho dela com as traduções para o português, também diz muitas coisas, assim como Leminski, e com certeza João Cabral de Melo Neto. Nem em uma ponta nem na outra estão poetas como Oswald de Andrade, que diz duas ou três coisas, e Bertolt Brecht, que diz umas quatro.

A qualidade de um poeta não tem que ser medida pela quantidade de coisas que ele diz. Não existe nenhuma superioridade do poeta que diz várias coisas em relação ao poeta que diz uma só. A poesia (como toda arte, mas mais que o resto da literatura), se preocupa mais com o “como” que com o “o que”, e existe mesmo uma força nisso, nessa limpeza de ponderar sempre a mesma pedra, examinar sempre o mesmo objeto. E como a arte e a ciência sabem igualmente, qualquer objeto pode se desdobrar infinitamente, e não há nada no universo em que não se possa gastar uma vida. Eu diria apenas, talvez, que aos poetas que dizem uma única coisa, principalmente se produziram muito, eu não gosto de ler de uma vez só, atravessando uma depois da outra as páginas de uma compilação das suas obras completas (um jeito de ler, na minha opinião, cruel para com a maioria dos poetas). O ideal seria, na minha opinião, ir consumindo seus poemas em um ritmo semelhante ao que foram escritos, indo às vezes visitar o poeta, sentado sobre a unidade da sua coisa, para pegar seus últimos poemas. A não ser, talvez, que se queira mergulhar de uma vez na coisa desse poeta, e transformá-la na sua própria lente para a vida, pelo menos por um tempo. É possível se apaixonar assim, até o esgotamento de todas as páginas, até o esgotamento das releituras, eu mesmo já vivi esse tipo de paixão.  Não importa, no fim das contas, se os poetas dizem muitas coisas, se dizem apenas uma coisa ou se dizem três. Ao leitor importa somente que as diga, senão não haveria poesia. E ao poeta, que não as entenda totalmente, ou então poesia não seriam.

Rui Xavier

Apontamentos Sobre a Pessoa que Eu Quero Ser

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Francisco de Zurbarán

Eu quero continuar bebendo bastante, mas nunca mais de tédio ou de ansiedade. Eu quero ser o tipo de pessoa que se lembra de passar protetor solar. Eu quero ser o tipo de pessoa que não transforma prazeres em dívidas, que não transforma ideias em dívidas, nem esperanças, quero ser o tipo de pessoa que não enxerga uma dívida a não ser que a coisa seja de fato, inequivocamente, uma dívida. Eu quero ser o tipo de pessoa que paga suas dívidas. Eu quero ser uma pessoa que se move, mas sem que isso implique ser cego para todas as coisas que me movem, e não dependem da minha participação. Eu quero ser capaz de fazer um hábito de toda a profilaxia necessária. Quero parar de dar de graça a única coisa que eu tenho pra vender. Eu quero ser capaz de estar em dúvida, de permanecer sentado sobre a dúvida, equilibrado sobre a dúvida como sobre uma bicicleta, sem precisar todas as vezes resolvê-la, seguindo só, seguindo. Eu quero dizer muito mais sim. Eu quero dizer muito mais não. Queria voltar a ler como na infância (mas talvez isso seja pedir demais). Eu quero poder ser útil. Eu quero saber ser falto. Eu quero ter o sentido da participação, antes de tudo o sentido da participação, mais do que qualquer coisa o sentido da participação. Eu quero guardar os nomes das pessoas e depois chama-las sempre pelo nome, saber ser amável sem sentir a ansiedade de ser amado. Eu quero não ter sempre que ver o fundo. Eu quero sentir vontade de tudo aquilo que preciso. O que preciso, quero ser capaz de fazer sem ter vontade. Eu quero querer tudo o que eu quero. E quero também saber a diferença que existe entre isso, e aquilo que eu somente queria querer.

Rui Xavier

Os Objetos Mais Tristes do Mundo

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a placa Pioneer

Existe um vídeo na internet que um dia me fez chorar. Foi um choro de uma melancolia perfeitamente lisa e esférica, muito densa e sem soluços, do tipo que nunca antes tinha sido provocada em mim por um vídeo na internet… Um vídeo na internet já havia causado me causado, antes disso, uma emoção inesquecível, mas muito diferente, uma verdadeira cicatriz na memória: era o registro da remoção dos restos de um terrorista que acabara de se explodir, uma bolha de carne com uns cabelos em cima se desfazendo sobre a poeira, uma coisa muito mais pornográfica, totalmente pornográfica. Esse não – era só um vídeo de almanaque contando uma coisa de que eu já sabia: que nos anos de 1972 e 1977, respectivamente, duas placas de alumínio e dois discos de ouro foram lançados ao espaço, como as menores garrafas a serem lançadas num oceano maior do que a mente humana pode conceber.

Eu mesmo me surpreendi com meu choro, pois esse fato já era do meu conhecimento, e nunca eu o tinha achado tão triste. Mas o vídeo tinha imagens e depoimentos, toda aquela gente que fez e acreditou nessa bobagem, tinha as imagens da placa de alumínio: um casal mais ou menos caucasiano (o homem, de mão erguida, saúda; a mulher não tem boceta), a transição hiperfina do hidrogênio, a posição do sol na galáxia e um mapa com uma flechinha para a terra, e também vários exemplos das imagens e sons gravadas analogicamente no disco: tabelas, diagramas pessoas comendo e bebendo, a Terra e Júpiter vistos do espaço, saudações de autoridades e em muitos idiomas, uma ampla coleção de barulhos, de turbinas a macacos, e também uma seleção de música, tanto desse orgulhoso entusiasmo, tanto dessa convicção no triunfo da curva, e mostrava a trajetória da nave no espaço, a solitária navezinha no espaço, o impulso apaixonado da sua inércia e o ouro à espera da vitrola alienígena.

Me veio na cabeça a sorte de outros objetos indizivelmente solitários… O busto de Lenin que os soviéticos ergueram no polo de inacessibilidade (é esse o nome do lugar) do continente antártico, de onde ele até hoje olha para Moscou, sem nunca ser olhado por ninguém. Esse tem um propósito muito diferente, mas é igualmente triste, porque é igualmente uma coisa feita para dizer, igualmente lançada ao vazio, ao silêncio e à solidão, em nome de uma esperança falsa. Esses estão entre os objetos mais tristes do mundo. Tristes como uma carta que nunca chega, como o aparelho feito para medir um elemento que mais tarde se descobre que não existe.

Eu procurei outros exemplos desses objetos, que fossem tristes desse tipo de tristeza, e não de outro. Não queria que esse fla-flu da Guerra Fria, que atravessa inevitavelmente o texto, se insinuasse como um tema subterrâneo, ou, pior ainda, como o “verdadeiro tema”, quando ele é, na verdade, acidental. Não tenho dúvida nenhuma de que alguém com um repertório maior encontraria outros exemplos de objetos assim, carregados da mesma híbris, na história das civilizações. Mas deixei o texto dormir, vasculhei minha memória, e não me ocorria mais nenhum. Há milhões de objetos tristes, ainda mais tristes, milhões de sapatos de mortos e de objetos feitos para matar, pilhas de coisas esquecidas na solidão do descarte, indústrias de toda sorte de coisas feitas para fazer sofrer. Mas esses são, definitivamente, uma outra história, totalmente diferente, algo muito diferente desses sonhos e devaneios, uma coisa muito mais pornográfica.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira

Ansiedade

Paul Klee
Paul Klee

Na hora mesma em que a garganta se enche do gole, desejar o próximo gole. Estar dentro de você, perto do gozo, e lamentar já seu final, me perguntando se hoje vai ter mais. Sofrer durante o último por ainda não ter o próximo. Alguma angústia que se presentifica no espaço entre meus dedos. A urgência de escapar, sempre que qualquer sombra incide, por roteiros conhecidos, plataformas de consumir e ser consumido, ferramentas para procrastinação, rotinas de prazer forçado. Ninguém pode ter só montanhas; ou se aceita a existência dos vales, ou se vive a vida num plano. Existe uma perigosa produção de planos, no mundo de hoje. Planos lisos como o exemplo das escolas, nas aulas de física, aqueles em que se desliza na perfeita inércia para todo sempre, caso nunca o objeto manifeste sua vontade. Mas como vamos parar de deslizar, vivendo no vácuo desses sistemas, sem ranhuras para nos agarrar, sem nenhuma dobra no terreno? Pôr a culpa no mundo é fácil. Outras cabeças transitam melhor por essas águas. Outras pior, se me serve de consolo. Seguimos.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira

Bicicletas

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Fernand Léger

O Edifício Minister, onde moro, tem alguma coisa contra bicicletas (Minister é o nome do cigarro que meu pai fumava, enquanto fumou – informação que não tem nada a ver com este texto, mas que não resisti a acrescentar). O problema do prédio é o mesmo do Brasil: a maioria dos proprietários não reside no local, e as decisões que tomam afetam sempre a vida alheia. Tratam os moradores com desconfiança e até com animosidade. Fazem interferências que atrapalham a vida de todos para incrementar a atratividade de mercado (como a proibição dos varais externos, que nos obriga até hoje a encher de roupas os pequeninos apartamentos, toda vez). E não gostam de bicicletas. Ou simplesmente não são capazes de demonstrar o mínimo de boa vontade para com quem habita os seus domínios, porque, apesar da fartura de espaços ociosos no gigantesco Edifício Minister, e dos nossos insistentes pedidos, recusam-se a criar um lugar para estacioná-las. Alguns moradores optam por deixá-las na rua, amarradas em postes. Outros penduram-nas nas paredes. Para subir ou descer com a bike só se pode usar um dos quatro elevadores – que nunca passa ou passa cheio de cachorros.

*

Não é nova essa animosidade contra a bicicleta. Cortázar tem um conto sobre isso. Não sei como é na Argentina, mas me lembro de ter aprendido na infância que o uso da bicicleta como meio de transporte era um hábito de nações tão exóticas e distantes quanto a China. Antes do uso generalizado dos carros não eram necessárias ciclovias: as imagens tremelicantes do começo do século passado mostram espaços públicos atravessados por bondes, bicicletas e pedestres, uns poucos carros e ainda algum cavalo, sem distinção entre via e calçada. O ciclista de uma cidade brasileira, sempre alternando entre a posição de veículo e a de pessoa, não tem dificuldade em entender como isso era possível – não é mistério algum para uma bicicleta alternar do rápido para o suave, serpentear no meio de uma massa de pedestres sem atingir ninguém. Foi só quando decidimos que ir mais rápido valia algumas (não tão poucas) mortes que passou a ser preciso confinar cada meio de transporte a uma área muito bem delimitada, partindo sempre do princípio de que quem se mete no meio dos carros está penhorando o direito à vida. Eu mesmo andei pouco de bicicleta na infância e nada na adolescência – foi a cidade de Guararapes, seu plano tabuleiro de xadrez, que me ensinou novamente a me equilibrar sobre uma bike, no calor das férias familiares e com a companhia das crianças. Quando comecei a andar em São Paulo isso foi objeto de preocupação. Outro dia sofri um pequeno acidente – vivemos sempre preocupados com os carros, mas muitas vezes são os pedestres quem nos derrubam (não é do jeito brasileiro atravessar na faixa, e nem olhar para os dois lados antes de se lançar na ciclovia).

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É inegável que para encarar as ladeiras é necessária alguma devoção, mas é igualmente inegável que a experiência da cidade é bem melhor de bicicleta. Que delícia é deslizar Consolação abaixo, desfrutando o schadenfreude de ver os carros parados, resfolegando na agonia das seis. Que delícia é sentir a brisa fresca que não toca o rosto dos transeuntes. É claro que nas avenidas mais hostis o sentimento é nublado pela constante atenção ao perigo, mas as ciclovias são como tapetes mágicos (menos a do Minhocão, pela excessiva condensação da miséria humana).

É mesmo muito triste, e um sinal inequívoco da nossa loucura, que uma conquista prosaica como essa tenha virado objeto de polarização tamanha. Só em uma cidade francamente agreste e árida para tudo que não seja um automóvel uma noção como “cicloativismo” faz sentido, mas quem vai dizer que em nossa cidade ela não faz? Não que suas táticas não sejam questionáveis; é mesmo muito desagradável quando você está caminhando de mãos dadas e de repente o tour de France passa por você, com aqueles leds poderosíssimos na sua cara. Mas isso não justifica as comparações histéricas do Pondé.

*

Não tenho coragem de dizer que andar de bicicleta em São Paulo seja um ato de resistência, mas pelo menos é um desvio da normose, de um grau que seja. A disposição para longas caminhadas também é, mas para isso é necessário muito tempo livre. Mas tudo isso são maneiras de sentir-se livre, e livre no sentido mais  fundamental e simples, desimpedido de amarras, das restrições concretas de uma cidade que dá somente ao corpo a opção de transitar entre caixotes, carro, vagão, comboio.

*

A bicicleta e o carro são invenções da mesma época, e ambas  representam o mesmo espírito. Se me perguntassem o que acho, diria que, na longa duração, ainda estão em disputa, e nada garante que o jogo não possa virar.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira

Queimas de Fogos

Cai Guoqiang
Cai Guoqiang

Perdoem-me os cachorros, mas amo fogos de artifício. Não é um amor de que eu faça nenhuma defesa, esse texto não será de forma alguma uma defesa politicamente incorreta do nosso direito ao espetáculo dos fogos contra o direito ao bem estar dos cães (seres já prisioneiros num mundo que não é deles, torturados por banhos e loções, por cativeiros e abandonos, a quem há muito, desrespeitando um acordo de milênios, já não damos parte da nossa própria comida).

Tenho três queimas de fogo memoráveis. A primeira uma Copacabana engastada na memória da infância mais primeva, cascatas de fogo, pasmo de alegria, o rosto jovem da minha mãe. Não foi a única vez que vi a queima de fogos mais canônica do território brasileiro, mas é dessa, claro, que me lembro.

A segunda, muito mais recente, foi em Porto Velho, perto de alguma várzea do Madeira. Como a cidade é totalmente plana e tem pouquíssimos prédios, nada impede a visão dos fogos lançados por cada uma das várias festas, e no auge do foguetório era possível dar a volta em si mesmo e ver fogos em todo contorno do céu, próximos e distantes em todo giro, imersos na pólvora cintilante. Ali o que me marcou foi essa sensação de fantástico de uma cidade toda pondo para fora suas luzes, cada ponto no seu tempo, cada festa fazendo para si seu próprio espetáculo, enquanto o fenômeno que encampava a cidade inteiro ganhava, por isso, uma qualidade de outros espetáculos, imprevisto, orgânicos, uma disritmia de fenômeno natural, despreocupação de algas e raios de chuva.

A terceira  foi essa última, na passagem para esse ano de tanto agouro, com alguma coisa em comum com a segunda, mas muito amplificada, como se vai ver, por centenas de metros de altura, milhões de habitantes e toda aquela cola dos afetos que nos faz sentir toda a paisagem sólida, o amontoado gigantesco de concreto, ferro e vidro, com a ternura de algo que é nosso, e de que alguma forma somos parte.

Era a festa de réveillon de uma amiga. O prédio em que ela mora é uma instalação única no pedaço de mundo em que habita, nesse modelo que inventaram para os prédios cuja missão é ser ponta de lança dos esforços gentrificantes: o arranha-céu fortaleza, um prédio muito alto assentado sobre uma massa compacta de concreto onde ficam acomodadas as garagens e as facilidades (que devem ser completas, piscina, academia e tudo mais), de forma que um cubo preto gigante o separa de um mundo urbano ainda não domesticado lá fora. Fica no meio do Glicério o prédio dela, e é o único exemplar na região, a espera de outros que o sigam. Os quarteirões da frente são um vestígio do Brasil passado, e quando finalmente forem derrubados seus moradores provavelmente vão fazer o caminho já feito pela maioria dos pobres que vieram antes, saindo de cortiços para ir morar em favelas (torce-se para que as façam no centro, para que aqui continue sendo um dos poucos lugares de São Paulo onde as classes são obrigadas a conviver).

Ela mora no vigésimo primeiro andar desse arranha céu, e seu quarto tem uma sacada estreita e comprida de onde se enxerga uma vista incrível. Nenhum prédio próximo é tão alto, de forma que se está acima de tudo, mas não tão acima a ponto de transformar a cidade em um tapete de vagalumes… dos prédios mais próximos, tudo que cerca ali a Liberdade e a Sé, a massa toda da sua presença fica preservada, como se fossem esculturas em uma mesa de que nos distanciamos só o bastante. E a rua lá embaixo, o Glicério fervendo de rojões e churrasqueiras, era também perfeitamente visível, com visibilidade de diorama, as pessoas e seus gestos, adulto e criança, homem e mulher. Foi lá de cima que fiz uma descoberta que com certeza não argumenta a favor dos fogos, mas que fez a queima desse ano um dos espetáculos mais memoráveis para mim, do ponto de vista em que estava: os fogos de artifício são estrelas de altitude baixa. Os fogos mais altos estavam no máximo um pouco acima e nós. Eram muito distantes os da Paulista, certamente os mais planejados de toda a paisagem, com começo, meio e fim, mas de onde estávamos eram somente um detalhe distante, em meio ao pipocar caótico de brilho colorido que explodia bem no meio dos prédios, em fatias de céu apertadas, batalhas de magos de cinema, como se a cidade pegasse um fogo mágico. Na rua também explodiam, baratas, varinhas de brilho mais tênue, rojões repentinos e brancos (até esses eram bonitos, protegidos do barulho como estávamos, pela distância). Na rua dos Estudantes a molecada acendeu um daqueles chamados “árvore de natal”, que fica no chão lançando um jato de centelhas prateadas mais altas que uma pessoa, e que era, do nosso ângulo, mais espetacular que os da Paulista. Em dado momento passaram caminhões de bombeiro, três, sirenes e luzes acesas. Observei que era noite para trabalharem bastante, mas ninguém ao meu lado achou que havia fogo. Devem estar fazendo um desfile, alguém falou. Pensei que a rua do Glicério não é lá muito bom lugar para um desfile, ainda mais com as sirenes funcionando, mas não objetei muito mais. Eu amo os fogos de artifícios e o Ano Novo, amo a esperança renovada do Ano Novo, as sua juras de mudança, suas promessas.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira