
Eu gosto de discutir ideias, e até acho que tenho algumas que podem interessar a outras pessoas, ideias mais ou menos elaboradas sobre os mais variados temas, coisas sobre a vida, o mundo, as leis, as artes, o dinheiro e a ciência, deus e a humanidade. Mas uma dificuldade me desanima. É uma das muitas coisas erradas que eu aprendi na infância: a intelectualidade competitiva, o desejo de vencer na discussão… e sua contrapartida, o pavor da falar uma bobagem muito grande, de ser humilhado. E também, mordendo do outro lado, uma tensão excessiva produzida por qualquer conflito, mesmo os pequeninos. Eu gosto de discutir ideias, mas acabo sempre pendendo para meus textos de ficção ou depoimentos. Quase não consigo me imaginar colaborando em certas questões espinhosas da nossa sociedade, nas quais eu teria sim algo a dizer, mas a perspectiva do debate me enche de desânimo. Seria fácil pôr a culpa na incivilidade do mundo online – e, claro, eu tenho medo dela também, mas a verdade é que mesmo o debate mínimo, e mesmo o civilizado, é o suficiente para despertar essas ondas de ansiedade. Eu gosto de discutir ideias, e elaboro longas argumentações em minha mente que nunca alcançam a página. E não tenho dúvida nenhuma de que, quando resolvo colocar essas coisas no papel, toda essa caca, esse peso, essa prudência, essa necessidade de ter razão, tudo isso transborda para o texto, que fica mais pesado, perde em fluidez, é inferior ao resto do meu trabalho. Eu gosto de discutir ideias, mas nunca aprendi a estar em um debate de ideias como em um jogo agradável de bola, ou como na construção de um entendimento comum – se aprendi foi superficialmente, no fundo do meu coração meu medo ainda é ser calado. Quem me conheceu mais novo vai se lembrar de mim como um debatedor irascível e exaltado. Não é que eu esteja totalmente acima desse comportamento agora, mas era algo que antes eu não enxergava, ou que, pior ainda, em algum momento imaginei que era uma qualidade. Eu gosto muito de debater ideias, mas com frequência debater ideias me faz mal. É algo que eu quero mudar. Quantas pessoas são como eu, acabam sonegando suas contribuições à massa do que pensa o mundo por causa desse aprendizado da inteligência como objeto contundente? É algo que quero melhorar. É verdade que o mundo, e a internet, está cheio de gente assim, que debate ideias de um modo violento e desagradável, ou então pedante, mas você não é obrigado a conversar com eles. A qualidade da conversa começa na escolha dos seus interlocutores. Quem escreve um texto começa imaginando o leitor, consciente ou inconscientemente. Eu quero ser capaz de debater ideias sem imaginar do outro lado alguém que deve ser vencido ou convencido. Deve ser possível debater ideias sem essa angústia de ter razão. Eu quero aprender esse idioma que ninguém me ensinou na infância. Eu gosto muito de debater ideias, e essa é uma verdadeira lacuna na minha vida. A arte é boa, mas tem seus limites. São funções diferentes mesmo. As ideias são secundárias na arte. Mas uma coisa não exclui a outra, você pode gostar das artes e das ideias. Só convém não acreditar tanto assim em nenhuma das duas, talvez. Mas já divago, divago. Enfim, não tenho mais muito a dizer, só a declaração desse gosto, e dessa dimensão meio tampada da minha vida. Eu gosto muito de debater ideias. Quem sabe eu consigo fazer mais disso.
Rui Xavier







