O Ourives do Palavreado

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Eu ando muito atarantado, então não consegui escrever antes, mas preciso muito dar meus dois centavos sobre o Aldir Blanc… meu óbolo para sua travessia (não que ele precise, claro, quem precisa sou eu). O Aldir é um dos meus heróis literários, um dos poetas que me formaram, que me ensinaram (e me ensinam) não só a escrever, mas a sentir.

Como as pessoas da minha geração e que cresceram, como eu, no culto da grande MPB, conheci as músicas do Aldir Blanc de nascença, as parcerias com João Bosco, o “hino da abertura”. Inicialmente, como muitos, sem saber que eram dele. Mas, para minha sorte, eu ainda era garoto quando fui devidamente apresentado à obra, soube quem ele era e me apaixonei por suas canções. Isso se deu a partir deste álbum de 96, gravado em comemoração dos seus 50 anos. Em 1996 eu tinha onze anos. Não tenho certeza de que tenha chegado a mim no ano do seu lançamento, mas se não foi isso foi pouco depois. É um trabalho simplesmente primoroso, cheio de canções que incendiaram minha imaginação para a vida toda. Ouvindo hoje, vi que ainda sei tudo de cor.

Blanc unia em sua poesia o máximo do lirismo e da sofisticação, e em seguida toda liberdade do sarro e da informalidade máxima. A curadoria das músicas deste disco faz uma curva muito inteligente, do lirismo para o sarro e de volta para o lirismo. Aí que, na mesma experiência, vamos de “o Dunga vai te dar a cobertura / Esse é bandido jóia e cana dura, / chegado num pagode com morena, sangue bom, é meu bróder”, no samba Negão das Paradas, para “O pó das asas sobre as rosas / Que o fauno à luz da lua pisa, espectral. / Meio-dia e já é meia-noite / E a sombra do que amei me tira pra dançar / Em mãos irmãs”, em Crescente Fértil, numa bela parceria com Ed Motta. Não é uma maravilha ter aprendido poesia assim?

 Ao Aldir Blanc devo uma vida de gratidão. Toda minha geração deve uma vida de gratidão à sua. Sua morte se sente simbólica, como foi a morte de João, numa hora sinistra como essa. Adoraria acreditar em alma eterna, para achar que ele segue compondo, em planos etéreos, em novas parcerias com os grandes do nosso passado. Não acredito, infelizmente. Guardemos a nós mesmos a tarefa de eternizar suas canções.

Rui Xavier

Abaixo colo o link do album  a que me refiro:

Tarot: O Dois de Copas

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O dois de copas é a carta do amor correspondido, do desejo mútuo, da intimidade, dos relacionamentos fortes, de tudo o que cresce e prospera por meio da união. Um casal brinda com suas copas, ela veste uma coroa de folhas (serão folhas de louro? Será que essa amante é a Vitória?) e ele veste uma coroa de flores. A casinha ao fundo, protegida por colinas verdejantes, só pode ser a casa do casal. Os dois se encaram, imagino um olhar ardente.

Dois símbolos poderosos pairam sobre eles: primeiro as duas cobras entrelaçadas; é um caduceu, o símbolo de Hermes, o deus trapaceiro, mensageiro dos deuses, guia dos mortos, protetor dos comerciantes, dos pastores, dos jogadores e dos mentirosos. O que esse deus de tantas faces faz ali? O amor é outra criatura alada. Mas Hermes sabe de coisas que não sabemos. Acima do caduceu, talvez ainda mais instigante, essa cabeça de leão alado. Dizem que simboliza o fogo da paixão, alguns dizem que é uma quimera. Pode ser. Faltam animais a essa quimera, no entanto. São Marcos, o evangelista, era representado por um leão alado, mas outros leões alados já assombravam os sonhos da humanidade muito antes dele. Com qual deles sonhava Pamela Colman Smith em 1910, ao desenhar esse baralho? Deus não deu asas às cobras nem aos leões, e por razões muito semelhantes, mas nós aspiramos a um e temos pavor da outra. Talvez a mensagem seja essa, de força, de esplendor e de perigo, e tudo mais que paira sobre o Amor.

O elemento do naipe de copas é a água.

Rui Xavier

Quanto Pior o Ano, Melhor o Carnaval! 

Saiu o novo disco da minha banda!! O show de carnaval do Anhangabahy desaguou em um lindo e incandescente EP: 🔥Quanto Pior o Ano, Melhor o Carnaval!🔥

As cinco músicas do EP propõe a fusão da farra com a resistência, da poesia com a crítica, embalados em uma energia alegre, às vezes sarcástica, sempre de peito aberto. Musicalmente, o grupo aprofunda sua MPB energética, onde fala alto o diálogo da marchinha com o funk e o jazz, resultando em um carnaval pop, pensante e muito brasileiro.

Ficha Técnica:
Rui Xavier: voz, letra, melodia
Wady Issa Fernandes: harmonia, arranjo, violão, voz
Hevelin Gonçalves: voz
Dharma Samu: sax, piano, sintetizador e arranjos de cobertura
Lucas CG: bateria
Flavio Hernandes: baixo
Gustavo Gothardo: percussão

Gravação, mixagem e masterização: Sergio Basseti

 

Teoria do Apego

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Jean Michel Basquiat

Lendo psicologia; Teoria do Apego (Bowlby, Ainsworth e cia), à volta a névoa informativa dos meus sonhos. Alguém te disse, em sua infância, que havia algo de errado com você, e por isso essa pequena nuvem negra se apegou à sua cabeça, a nuvenzinha negra de criatura de cartum exatamente do tamanho do teu côco, casmurra, chovendo nos melhores piqueniques. Alguém na aurora da sua vida, debaixo das bananeiras, à sombra dos laranjais, te informou a respeito da sua essencial insuficiência, e por isso o parasita em teu estômago, a taturana famélica em sua língua, o demoninho no seu peito vindo de algum catecismo medievo, de um bestiário de arcaicas tias mineiras,  vindo do tempo de uma Grande Fome – é por isso que essa fome não passa, porque está naquele tempo, a fome que você tenta saciar é uma memória, aquilo que você quer evitar já aconteceu. Porque naquele momento foi preciso, quando nenhum recurso era seu, negociar pelo amor, argumentar por ele e prová-lo, como quem negocia com o captor a própria vida, é natural que agora o amor te saiba contaminado por esse medo, por essa angústia, essa desconfiança subterrânea. São marcas na tua fôrma, a ortopedia no teu tronco desde a muda. E não existe pôr em pratos limpos. Há um tirano a porta desse esterco; que Alfeu de águas frias, que ligeiro Peneu para lavá-lo? Ninguém escolhe a própria cara, a própria altura, ninguém escolhe como passa o cativeiro da infância. As cartas dada pelo ontem, na realidade, o vento já levou. O que existe agora é o hoje. E hoje, o trabalho do amanhã.

Rui Xavier

Lendo Poesia

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Zezão

Alguns poetas dizem a mesma coisa em todos os seus poemas, e passam a vida dizendo essa única coisa. Outros poetas dizem muitas coisas, e cada poema seu diz uma coisa diferente. E existem também, é claro, todos outros, no meio das duas pontas desse espectro. Manoel de Barros é um exemplo de um poeta que diz sempre a mesma coisa em todos os poemas. Me parece que Bukowski disse muito a mesma coisa, mas acho que no fim da carreira encontrou mais uma ou duas. Fernando Pessoa tinha muitas coisas a dizer, mas optou por dividi-las entre suas personas literárias fictícias, dando uma dessas coisas para cada uma (eu não li tanto Pessoa assim, mas afirmo sem medo de errar que pelo menos o Álvaro de Campos diz sempre a mesma coisa). Carlos Drummond de Andrade é um poeta que diz muitas coisas, e Szymborska, só naquele livrinho dela com as traduções para o português, também diz muitas coisas, assim como Leminski, e com certeza João Cabral de Melo Neto. Nem em uma ponta nem na outra estão poetas como Oswald de Andrade, que diz duas ou três coisas, e Bertolt Brecht, que diz umas quatro.

A qualidade de um poeta não tem que ser medida pela quantidade de coisas que ele diz. Não existe nenhuma superioridade do poeta que diz várias coisas em relação ao poeta que diz uma só. A poesia (como toda arte, mas mais que o resto da literatura), se preocupa mais com o “como” que com o “o que”, e existe mesmo uma força nisso, nessa limpeza de ponderar sempre a mesma pedra, examinar sempre o mesmo objeto. E como a arte e a ciência sabem igualmente, qualquer objeto pode se desdobrar infinitamente, e não há nada no universo em que não se possa gastar uma vida. Eu diria apenas, talvez, que aos poetas que dizem uma única coisa, principalmente se produziram muito, eu não gosto de ler de uma vez só, atravessando uma depois da outra as páginas de uma compilação das suas obras completas (um jeito de ler, na minha opinião, cruel para com a maioria dos poetas). O ideal seria, na minha opinião, ir consumindo seus poemas em um ritmo semelhante ao que foram escritos, indo às vezes visitar o poeta, sentado sobre a unidade da sua coisa, para pegar seus últimos poemas. A não ser, talvez, que se queira mergulhar de uma vez na coisa desse poeta, e transformá-la na sua própria lente para a vida, pelo menos por um tempo. É possível se apaixonar assim, até o esgotamento de todas as páginas, até o esgotamento das releituras, eu mesmo já vivi esse tipo de paixão.  Não importa, no fim das contas, se os poetas dizem muitas coisas, se dizem apenas uma coisa ou se dizem três. Ao leitor importa somente que as diga, senão não haveria poesia. E ao poeta, que não as entenda totalmente, ou então poesia não seriam.

Rui Xavier

Apontamentos Sobre a Pessoa que Eu Quero Ser

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Francisco de Zurbarán

Eu quero continuar bebendo bastante, mas nunca mais de tédio ou de ansiedade. Eu quero ser o tipo de pessoa que se lembra de passar protetor solar. Eu quero ser o tipo de pessoa que não transforma prazeres em dívidas, que não transforma ideias em dívidas, nem esperanças, quero ser o tipo de pessoa que não enxerga uma dívida a não ser que a coisa seja de fato, inequivocamente, uma dívida. Eu quero ser o tipo de pessoa que paga suas dívidas. Eu quero ser uma pessoa que se move, mas sem que isso implique ser cego para todas as coisas que me movem, e não dependem da minha participação. Eu quero ser capaz de fazer um hábito de toda a profilaxia necessária. Quero parar de dar de graça a única coisa que eu tenho pra vender. Eu quero ser capaz de estar em dúvida, de permanecer sentado sobre a dúvida, equilibrado sobre a dúvida como sobre uma bicicleta, sem precisar todas as vezes resolvê-la, seguindo só, seguindo. Eu quero dizer muito mais sim. Eu quero dizer muito mais não. Queria voltar a ler como na infância (mas talvez isso seja pedir demais). Eu quero poder ser útil. Eu quero saber ser falto. Eu quero ter o sentido da participação, antes de tudo o sentido da participação, mais do que qualquer coisa o sentido da participação. Eu quero guardar os nomes das pessoas e depois chama-las sempre pelo nome, saber ser amável sem sentir a ansiedade de ser amado. Eu quero não ter sempre que ver o fundo. Eu quero sentir vontade de tudo aquilo que preciso. O que preciso, quero ser capaz de fazer sem ter vontade. Eu quero querer tudo o que eu quero. E quero também saber a diferença que existe entre isso, e aquilo que eu somente queria querer.

Rui Xavier

Um Texto Que Não Sei Escrever

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Kate MccGwire

Eu queria escrever um texto que fosse assim como um acorde de fá sustenido com sétima, um texto que fosse assim como o suor escorrendo de uma barriga, que fosse assim como um determinado tom de vermelho, muito denso, tenso e sóbrio, que vi uma vez em uma exposição na Pinacoteca da Luz (eram quadros da belle époque… de quem era esse vermelho?). Eu quase sei como seria esse texto. Sei precisamente como ele deslizaria, insinuante, com um claro atributo de serpente (mas mais macio e sem o risco da peçonha) durante todo primeiro parágrafo, para depois ganhar uma temperatura muito mais metálica, aquela clareza franca e precisa de um gosto cítrico, em um parágrafo curto e crescente que terminasse em duas linhas todas feitas de elementos ágeis, com pulinhos de pássaros e um tilintar de bicicletas com sininhos, antes de se afogar como vinho em um longo parágrafo final, um parágrafo bojudo, enfunado como uma vela, saturado de elementos aromáticos, com um tempo de mel e de cetáceos e a gravidade de dois corpos na modorra da mesma cama, às oito e quarenta e cinco da manhã, quando não há nenhum lugar para ir e o despertar é lento.

Eu quase sei como seria esse texto. Tenho bem claro os ritmos e os efeitos, sinto sua pressão em minha língua como se já fosse capaz de dizê-lo, é um texto que sinto pronto dentro de mim, pronto como o gesto de um arqueiro, conhecido como o corpo da mulher que eu amo, nítido como a fruta favorita. Não falta quase nada. Faltam só as palavras.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira 

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Os Objetos Mais Tristes do Mundo

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a placa Pioneer

Existe um vídeo na internet que um dia me fez chorar. Foi um choro de uma melancolia perfeitamente lisa e esférica, muito densa e sem soluços, do tipo que nunca antes tinha sido provocada em mim por um vídeo na internet… Um vídeo na internet já havia causado me causado, antes disso, uma emoção inesquecível, mas muito diferente, uma verdadeira cicatriz na memória: era o registro da remoção dos restos de um terrorista que acabara de se explodir, uma bolha de carne com uns cabelos em cima se desfazendo sobre a poeira, uma coisa muito mais pornográfica, totalmente pornográfica. Esse não – era só um vídeo de almanaque contando uma coisa de que eu já sabia: que nos anos de 1972 e 1977, respectivamente, duas placas de alumínio e dois discos de ouro foram lançados ao espaço, como as menores garrafas a serem lançadas num oceano maior do que a mente humana pode conceber.

Eu mesmo me surpreendi com meu choro, pois esse fato já era do meu conhecimento, e nunca eu o tinha achado tão triste. Mas o vídeo tinha imagens e depoimentos, toda aquela gente que fez e acreditou nessa bobagem, tinha as imagens da placa de alumínio: um casal mais ou menos caucasiano (o homem, de mão erguida, saúda; a mulher não tem boceta), a transição hiperfina do hidrogênio, a posição do sol na galáxia e um mapa com uma flechinha para a terra, e também vários exemplos das imagens e sons gravadas analogicamente no disco: tabelas, diagramas pessoas comendo e bebendo, a Terra e Júpiter vistos do espaço, saudações de autoridades e em muitos idiomas, uma ampla coleção de barulhos, de turbinas a macacos, e também uma seleção de música, tanto desse orgulhoso entusiasmo, tanto dessa convicção no triunfo da curva, e mostrava a trajetória da nave no espaço, a solitária navezinha no espaço, o impulso apaixonado da sua inércia e o ouro à espera da vitrola alienígena.

Me veio na cabeça a sorte de outros objetos indizivelmente solitários… O busto de Lenin que os soviéticos ergueram no polo de inacessibilidade (é esse o nome do lugar) do continente antártico, de onde ele até hoje olha para Moscou, sem nunca ser olhado por ninguém. Esse tem um propósito muito diferente, mas é igualmente triste, porque é igualmente uma coisa feita para dizer, igualmente lançada ao vazio, ao silêncio e à solidão, em nome de uma esperança falsa. Esses estão entre os objetos mais tristes do mundo. Tristes como uma carta que nunca chega, como o aparelho feito para medir um elemento que mais tarde se descobre que não existe.

Eu procurei outros exemplos desses objetos, que fossem tristes desse tipo de tristeza, e não de outro. Não queria que esse fla-flu da Guerra Fria, que atravessa inevitavelmente o texto, se insinuasse como um tema subterrâneo, ou, pior ainda, como o “verdadeiro tema”, quando ele é, na verdade, acidental. Não tenho dúvida nenhuma de que alguém com um repertório maior encontraria outros exemplos de objetos assim, carregados da mesma híbris, na história das civilizações. Mas deixei o texto dormir, vasculhei minha memória, e não me ocorria mais nenhum. Há milhões de objetos tristes, ainda mais tristes, milhões de sapatos de mortos e de objetos feitos para matar, pilhas de coisas esquecidas na solidão do descarte, indústrias de toda sorte de coisas feitas para fazer sofrer. Mas esses são, definitivamente, uma outra história, totalmente diferente, algo muito diferente desses sonhos e devaneios, uma coisa muito mais pornográfica.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira

Ansiedade

Paul Klee
Paul Klee

Na hora mesma em que a garganta se enche do gole, desejar o próximo gole. Estar dentro de você, perto do gozo, e lamentar já seu final, me perguntando se hoje vai ter mais. Sofrer durante o último por ainda não ter o próximo. Alguma angústia que se presentifica no espaço entre meus dedos. A urgência de escapar, sempre que qualquer sombra incide, por roteiros conhecidos, plataformas de consumir e ser consumido, ferramentas para procrastinação, rotinas de prazer forçado. Ninguém pode ter só montanhas; ou se aceita a existência dos vales, ou se vive a vida num plano. Existe uma perigosa produção de planos, no mundo de hoje. Planos lisos como o exemplo das escolas, nas aulas de física, aqueles em que se desliza na perfeita inércia para todo sempre, caso nunca o objeto manifeste sua vontade. Mas como vamos parar de deslizar, vivendo no vácuo desses sistemas, sem ranhuras para nos agarrar, sem nenhuma dobra no terreno? Pôr a culpa no mundo é fácil. Outras cabeças transitam melhor por essas águas. Outras pior, se me serve de consolo. Seguimos.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira

Bicicletas

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Fernand Léger

O Edifício Minister, onde moro, tem alguma coisa contra bicicletas (Minister é o nome do cigarro que meu pai fumava, enquanto fumou – informação que não tem nada a ver com este texto, mas que não resisti a acrescentar). O problema do prédio é o mesmo do Brasil: a maioria dos proprietários não reside no local, e as decisões que tomam afetam sempre a vida alheia. Tratam os moradores com desconfiança e até com animosidade. Fazem interferências que atrapalham a vida de todos para incrementar a atratividade de mercado (como a proibição dos varais externos, que nos obriga até hoje a encher de roupas os pequeninos apartamentos, toda vez). E não gostam de bicicletas. Ou simplesmente não são capazes de demonstrar o mínimo de boa vontade para com quem habita os seus domínios, porque, apesar da fartura de espaços ociosos no gigantesco Edifício Minister, e dos nossos insistentes pedidos, recusam-se a criar um lugar para estacioná-las. Alguns moradores optam por deixá-las na rua, amarradas em postes. Outros penduram-nas nas paredes. Para subir ou descer com a bike só se pode usar um dos quatro elevadores – que nunca passa ou passa cheio de cachorros.

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Não é nova essa animosidade contra a bicicleta. Cortázar tem um conto sobre isso. Não sei como é na Argentina, mas me lembro de ter aprendido na infância que o uso da bicicleta como meio de transporte era um hábito de nações tão exóticas e distantes quanto a China. Antes do uso generalizado dos carros não eram necessárias ciclovias: as imagens tremelicantes do começo do século passado mostram espaços públicos atravessados por bondes, bicicletas e pedestres, uns poucos carros e ainda algum cavalo, sem distinção entre via e calçada. O ciclista de uma cidade brasileira, sempre alternando entre a posição de veículo e a de pessoa, não tem dificuldade em entender como isso era possível – não é mistério algum para uma bicicleta alternar do rápido para o suave, serpentear no meio de uma massa de pedestres sem atingir ninguém. Foi só quando decidimos que ir mais rápido valia algumas (não tão poucas) mortes que passou a ser preciso confinar cada meio de transporte a uma área muito bem delimitada, partindo sempre do princípio de que quem se mete no meio dos carros está penhorando o direito à vida. Eu mesmo andei pouco de bicicleta na infância e nada na adolescência – foi a cidade de Guararapes, seu plano tabuleiro de xadrez, que me ensinou novamente a me equilibrar sobre uma bike, no calor das férias familiares e com a companhia das crianças. Quando comecei a andar em São Paulo isso foi objeto de preocupação. Outro dia sofri um pequeno acidente – vivemos sempre preocupados com os carros, mas muitas vezes são os pedestres quem nos derrubam (não é do jeito brasileiro atravessar na faixa, e nem olhar para os dois lados antes de se lançar na ciclovia).

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É inegável que para encarar as ladeiras é necessária alguma devoção, mas é igualmente inegável que a experiência da cidade é bem melhor de bicicleta. Que delícia é deslizar Consolação abaixo, desfrutando o schadenfreude de ver os carros parados, resfolegando na agonia das seis. Que delícia é sentir a brisa fresca que não toca o rosto dos transeuntes. É claro que nas avenidas mais hostis o sentimento é nublado pela constante atenção ao perigo, mas as ciclovias são como tapetes mágicos (menos a do Minhocão, pela excessiva condensação da miséria humana).

É mesmo muito triste, e um sinal inequívoco da nossa loucura, que uma conquista prosaica como essa tenha virado objeto de polarização tamanha. Só em uma cidade francamente agreste e árida para tudo que não seja um automóvel uma noção como “cicloativismo” faz sentido, mas quem vai dizer que em nossa cidade ela não faz? Não que suas táticas não sejam questionáveis; é mesmo muito desagradável quando você está caminhando de mãos dadas e de repente o tour de France passa por você, com aqueles leds poderosíssimos na sua cara. Mas isso não justifica as comparações histéricas do Pondé.

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Não tenho coragem de dizer que andar de bicicleta em São Paulo seja um ato de resistência, mas pelo menos é um desvio da normose, de um grau que seja. A disposição para longas caminhadas também é, mas para isso é necessário muito tempo livre. Mas tudo isso são maneiras de sentir-se livre, e livre no sentido mais  fundamental e simples, desimpedido de amarras, das restrições concretas de uma cidade que dá somente ao corpo a opção de transitar entre caixotes, carro, vagão, comboio.

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A bicicleta e o carro são invenções da mesma época, e ambas  representam o mesmo espírito. Se me perguntassem o que acho, diria que, na longa duração, ainda estão em disputa, e nada garante que o jogo não possa virar.

Rui Condeixa Xavier de Oliveira