Perdoem-me os cachorros, mas amo fogos de artifício. Não é um amor de que eu faça nenhuma defesa, esse texto não será de forma alguma uma defesa politicamente incorreta do nosso direito ao espetáculo dos fogos contra o direito ao bem estar dos cães (seres já prisioneiros num mundo que não é deles, torturados por banhos e loções, por cativeiros e abandonos, a quem há muito, desrespeitando um acordo de milênios, já não damos parte da nossa própria comida).
Tenho três queimas de fogo memoráveis. A primeira uma Copacabana engastada na memória da infância mais primeva, cascatas de fogo, pasmo de alegria, o rosto jovem da minha mãe. Não foi a única vez que vi a queima de fogos mais canônica do território brasileiro, mas é dessa, claro, que me lembro.
A segunda, muito mais recente, foi em Porto Velho, perto de alguma várzea do Madeira. Como a cidade é totalmente plana e tem pouquíssimos prédios, nada impede a visão dos fogos lançados por cada uma das várias festas, e no auge do foguetório era possível dar a volta em si mesmo e ver fogos em todo contorno do céu, próximos e distantes em todo giro, imersos na pólvora cintilante. Ali o que me marcou foi essa sensação de fantástico de uma cidade toda pondo para fora suas luzes, cada ponto no seu tempo, cada festa fazendo para si seu próprio espetáculo, enquanto o fenômeno que encampava a cidade inteiro ganhava, por isso, uma qualidade de outros espetáculos, imprevisto, orgânicos, uma disritmia de fenômeno natural, despreocupação de algas e raios de chuva.
A terceira foi essa última, na passagem para esse ano de tanto agouro, com alguma coisa em comum com a segunda, mas muito amplificada, como se vai ver, por centenas de metros de altura, milhões de habitantes e toda aquela cola dos afetos que nos faz sentir toda a paisagem sólida, o amontoado gigantesco de concreto, ferro e vidro, com a ternura de algo que é nosso, e de que alguma forma somos parte.
Era a festa de réveillon de uma amiga. O prédio em que ela mora é uma instalação única no pedaço de mundo em que habita, nesse modelo que inventaram para os prédios cuja missão é ser ponta de lança dos esforços gentrificantes: o arranha-céu fortaleza, um prédio muito alto assentado sobre uma massa compacta de concreto onde ficam acomodadas as garagens e as facilidades (que devem ser completas, piscina, academia e tudo mais), de forma que um cubo preto gigante o separa de um mundo urbano ainda não domesticado lá fora. Fica no meio do Glicério o prédio dela, e é o único exemplar na região, a espera de outros que o sigam. Os quarteirões da frente são um vestígio do Brasil passado, e quando finalmente forem derrubados seus moradores provavelmente vão fazer o caminho já feito pela maioria dos pobres que vieram antes, saindo de cortiços para ir morar em favelas (torce-se para que as façam no centro, para que aqui continue sendo um dos poucos lugares de São Paulo onde as classes são obrigadas a conviver).
Ela mora no vigésimo primeiro andar desse arranha céu, e seu quarto tem uma sacada estreita e comprida de onde se enxerga uma vista incrível. Nenhum prédio próximo é tão alto, de forma que se está acima de tudo, mas não tão acima a ponto de transformar a cidade em um tapete de vagalumes… dos prédios mais próximos, tudo que cerca ali a Liberdade e a Sé, a massa toda da sua presença fica preservada, como se fossem esculturas em uma mesa de que nos distanciamos só o bastante. E a rua lá embaixo, o Glicério fervendo de rojões e churrasqueiras, era também perfeitamente visível, com visibilidade de diorama, as pessoas e seus gestos, adulto e criança, homem e mulher. Foi lá de cima que fiz uma descoberta que com certeza não argumenta a favor dos fogos, mas que fez a queima desse ano um dos espetáculos mais memoráveis para mim, do ponto de vista em que estava: os fogos de artifício são estrelas de altitude baixa. Os fogos mais altos estavam no máximo um pouco acima e nós. Eram muito distantes os da Paulista, certamente os mais planejados de toda a paisagem, com começo, meio e fim, mas de onde estávamos eram somente um detalhe distante, em meio ao pipocar caótico de brilho colorido que explodia bem no meio dos prédios, em fatias de céu apertadas, batalhas de magos de cinema, como se a cidade pegasse um fogo mágico. Na rua também explodiam, baratas, varinhas de brilho mais tênue, rojões repentinos e brancos (até esses eram bonitos, protegidos do barulho como estávamos, pela distância). Na rua dos Estudantes a molecada acendeu um daqueles chamados “árvore de natal”, que fica no chão lançando um jato de centelhas prateadas mais altas que uma pessoa, e que era, do nosso ângulo, mais espetacular que os da Paulista. Em dado momento passaram caminhões de bombeiro, três, sirenes e luzes acesas. Observei que era noite para trabalharem bastante, mas ninguém ao meu lado achou que havia fogo. Devem estar fazendo um desfile, alguém falou. Pensei que a rua do Glicério não é lá muito bom lugar para um desfile, ainda mais com as sirenes funcionando, mas não objetei muito mais. Eu amo os fogos de artifícios e o Ano Novo, amo a esperança renovada do Ano Novo, as sua juras de mudança, suas promessas.
Grandes espaços abertos – e estruturas com grandes espaços abertos – por algum motivo me fazem pensar em cinema, e fazem com que eu me sinta uma personagem de cinema; esse sentimento bobo com que a maioria das pessoas consegue se identificar. Existe um alívio muito distinto nesse sentimento. Há uma forma analgésica de melancolia, uma espécie de afastamento carinhoso nisso de nos sentirmos, de vez em quando, como uma personagem de cinema.
Minha cidade me propicia esse sentimento com alguma frequência. Aqui há um viaduto que foi construído no meio dos prédios, tão próximo das janelas das pessoas que é preciso fechá-lo todas as noites, para que elas consigam dormir, e aos finais de semana, para que tenham um pouco de paz. Às nove e meia da noite, saídos das nossas tocas de concreto, nós apressamos os últimos carros, sem paciência com retardatários, e tomamos conta da via elevada: skatistas, corredores, pedestres, casais, maconheiros. Quando quero correr vou de uma ponta a outra – da Francisco Matarazzo até a Consolação. Na ponta da Consolação a via elevada se divide: uma pista segue para a Avenida, outra mergulha em um túnel de múltiplas vias, que aparece, ao fim da corrida, como um imenso portal retangular, e qualquer coisa na qualidade da cena faz parecer que existe um mistério, que mergulhar em sua luz amarela me levaria… não ao túnel tantas vezes percorrido, ao viaduto saturado de memória; me levaria a um lugar desconhecido, ao início de uma história inesperada, e nesses momentos, instantes brevíssimos, me sinto uma personagem de cinema. Também me sinto assim no fim da ciclovia da Avenida Pacaembú, quando deslizo em direção ao Estádio afim de usar sua piscina pública, ao avistar a construção imensa sob o sol, à distância da gigantesca praça. Preciso sentir a distância entre as coisas, essa relação entre grande e pequeno, de uma forma muito específica, ou não terei o alento duvidoso, a delicada película de ilusão, que envolve o espírito por um segundo como uma coberta da infância. Algumas músicas também me fazem sentir assim; a Noite Transfigurada de Schoenberg; uma ou outra canção americana, e também algumas situações, essas muito mais raras: chegar de madrugada em uma rodoviária do interior; ficar sozinho num balcão de padaria, às seis da manhã, enquanto ainda não entrou mais ninguém.
Sentir-se como uma personagem é sempre um alívio. Sempre invejamos as vidas das personagens, por pior que sejam. Toda personagem parece melhor do que nós, mais viva, mais verdadeira. Sentir-se uma personagem é sentir, por um instante, que existe um sentido nas coisas, um significado inexprimível, mas que se pode sentir concretamente. Como o mistério dos olhos da atriz. Como uma sombra que passa no rosto. A inveja da personagem de ficção é a prova de que o problema não é sofrer, mas é sofrer sem beleza, sofrer desordenadamente, sofrer nos intervalos, na fila, nas horas sem dignidade em que nada é tão bom nem tão mau; nas horas em que se cozinha, em que se paga as contas, em que se joga conversa fora e se deseja estar em outro lugar.
Ninguém consegue prolongar esse sentimento. A tentativa nunca é boa; ela pode acarretar num pedantismo, numa infantilidade, pode dar em bebedeira, em violência, em poesia ruim. Essa lente cinematográfica que se sobrepõe à vida não é de vidro, como a das câmeras, não é como a gelatina que colocamos nos refletores; é uma bolha de sabão, uma intuição – sequer é um pensamento – uma organização tão transitória que é difícil até provar como sabemos que ela existe. Essa é a superioridade da arte sobre a vida: o fato de que não dá pra viver lá. E sabe deus que eu tentei.
publicado originalmente no dia 27 de junho de 2017
Afinal, o que é a bondade? Que tipo de emoção é a bondade? Me pergunto se a bondade pode ser um prazer. Muitos de nós gostaríamos de achar que é. Mas se a bondade fosse um prazer, ela seria diversão, e não bondade. Não a bondade como o estado genérico de uma pessoa genericamente boa, essa bondade sim, pode ser alegre, e em geral é. Essa outra bondade, ela existe, ainda bem que ela existe, e é uma das colas que seguram inteiro o mundo, mas não é dela que falo, porque ela também é um gato gordo e acomodado, é bem alimentado e pode ser alegre. É ao gesto de bondade a que me refiro, o exercício ativo, ao esforço da bondade. A bondade precisa ser uma aflição, um incômodo, pois senão como se dar ao trabalho penoso e improdutivo da bondade? A miséria humana sempre se renova. Ela bate em ondas à porta exausta das nossas magras reservas de bondade.
Qualquer pedinte sabe disso: a bondade precisa ser uma forma de constrangimento. A bondade é uma forma de vergonha. A bondade se sente humilhada por não poder fazer mais, ela se recrimina do que deixou de fazer, ela enxerga injustiça em cada escolha; cada pedaço de pão que alguém come foi arrancado da boca de outra pessoa. Uma bondade satisfeita logo deixa de ser bondade, e é por isso que a mão esquerda não precisa saber do que a direita faz; porque sentir orgulho da bondade é já matá-la. Certas pessoas têm aversão a demonstrações muito públicas de bondade, e elas estão certas.
O exercício constante da bondade só pode se transformar em uma espécie de loucura, provavelmente autodestrutiva, provavelmente aniquilando o corpo, pelo esgotamento total dos seus recursos, pois as exigências da bondade são sem limites. É preciso que as instituições sejam boas justamente por isso, para que as pessoas não precisem ser, porque a bondade é uma paixão problemática, é uma dor que muitos querem evitar. Mesmo os que a desejam não a conseguem ter por muito tempo, seu exercício contínuo é impossível, a prática intermitente é difícil de regular.
Algumas pessoas são contra a bondade; dizem que é um remédio que prolonga a doença, um analgésico que mascara um mal fatal. Mas não é o veneno que nos mantém vivos? Não foi nesse tipo de sociedade que escolhemos viver? Quais são as alternativas? Nós podemos viver cheios de vergonha, mas os generais da Antiguidade tinham orgulho das suas pilhas de mortos. Por via das dúvidas é melhor sempre ouvi-la, aquela voz, o trêmulo ganido da bondade, sempre que o seu mal estar nos azeda os estômagos, nos para no meio do caminho e nos obriga a fazer alguma. Não é tanto porque o gesto de bondade consiga fazer de alguém uma pessoa boa, e nem porque consiga, de verdade, diminuir a quantidade de mal no mundo. É por outro motivo: porque a indiferença, ou a análise fria, também jamais se sustenta. É uma paixão insatisfatória. Tende a decair, depois de algum tempo, na prática franca do desamor e da violência; essa sim viciante, voraz, insaciável.
Em 1963, enquanto a vida fervia na Terra, o astrofísico Nikolai Semenovich Kardashev examinava uma fatia do céu, o quasar CTA-102, nos primeiros esforços do programa soviético de busca por inteligência extraterrestre. No ano seguinte, produziu um curiosíssimo método para medir aquilo que, embora não tivesse visto ou ouvido, era o foco central dos seus pensamentos; as civilizações interplanetárias escondidas atrás do silêncio do universo. Mais precisamente, seu nível de desenvolvimento tecnológico, representado pelo grau de consumo de energia. A Escala de Kardashev descreve três tipos hipotéticos de civilização: a de Tipo I, que seria o futuro próximo da humanidade, é aquela que consome um valor descrito como próximo do total de energia da insolação da Terra – há equações, que me recuso a reproduzir como se as entendesse – algo normalmente descrito, quando se pesquisa o assunto, como “toda capacidade energética do seu planeta”; a civilização de Tipo II, que seria capaz de aproveitar integralmente a energia da sua estrela, e, finalmente, como no sonho mais ousado de Darth Vader, a civilização de Tipo III, capaz de dominar as fontes energéticas de uma galáxia inteira.
Os astrofísicos estão acostumados às hipóteses abismantes, às sugestões maravilhosas – e, no entanto, críveis, porque matematicamente possíveis – de uma realidade com universos múltiplos, com o tempo e o espaço dobráveis como papel, buracos negros, buracos de minhoca, dimensões inexprimíveis e energia escura. Então não chega a ser verdadeiramente surpreendente que o trabalho de Kardashev seja até hoje acolhido sem grandes objeções por muitas mentes brilhantes que se ocupam desses assuntos. Esses cientistas, que nos mostram que as viagens interestelares são tecnicamente possíveis e propõe diversas soluções teóricas para sua aplicação futura, não só não têm dificuldade imaginar essas supercivilizações, como Kardashev as chamava, como acreditam que elas poderiam ser ainda mais potentes que o imaginado pelo russo (capazes de dominar o universo inteiro, ou mais de um universo, de utilizar energia da matéria escura, etc) e, melhor ainda, que deveriam, teoricamente, ser numerosíssimas. Entramos no louco mundo dos debates em torno do Paradoxo de Fermi, onde se embaralham a lógica e o sonho, a matemática e a esperança, a ideologia e a equação.
o paradoxo de Fermi e a solidão
Também chamado de Grande Silêncio, o paradoxo de Fermi aponta para a aparente contradição entre a provável abundância de vida inteligente no universo e a total ausência de seus sinais. Os físicos Enrico Fermi e Michael H. Hart levantaram os seguintes argumentos:
* Existem bilhões de estrelas na galáxia que são parecidas com o sol, muitas das quais são mais velhas que a terra.
* Com grande probabilidade, algumas dessas estrelas terão planetas parecidos com a terra, e, se a Terra é típica, alguns vão desenvolver vida inteligente.
* Algumas dessas civilizações podem desenvolver viagens interestelares, um passo no qual a Terra está investindo agora.
* Mesmo no ritmo lento em que está se desenvolvendo essa tecnologia, a Via Lactea poderia ser atravessada em mais ou menos um milhão de anos.
Diante disso, Fermi perguntou: “Onde está todo mundo?”. As respostas possíveis são inúmeras, é claro. Mas antes de passarmos por elas é preciso olhar para essa linha de argumentação, mais precisamente para o quarto argumento, sem o qual não há paradoxo. Esse argumento pressupõe claramente a existência de supercivilizações como as imaginadas por Kardashev. Sem ele não há paradoxo porque não haverá nada surpreendente no silêncio dos alienígenas inteligentes se eles, por acaso, seguirem suas vidas discretamente, sem emitir transmissões de rádio, como vivemos (sem sermos menos inteligentes) até 1906. Ou, mesmo que transmitam sinais de rádio, sem dominar galáxias. É que, dadas as dimensões ridiculamente grandes do universo, quando se procura por alguma coisa que não se sabe onde está, é preciso, para surpreender-se por não a encontrar, imaginá-la com dimensões igualmente ridículas. As imaginações por trás da Escala de Kardashev e do paradoxo de Fermi são uma rara oportunidade para as ciências humanas de sorrir para as exatas e apontar suas falhas metodológicas. Isso porque não se sustentam, claramente, apenas na matemática, mas em uma série de pressupostos (a respeito, principalmente, do rumo natural da história dos seres inteligentes) que, colocados sob exame, revelam muito mais da ideologia dominante do nosso mundo do que jamais poderiam revelar sobre mundos alheios.
A vastidão do universo é insuportável. Não no sentido de que não a conseguimos aguentar, mas no sentido de que nosso suporte cognitivo é inadequado para imaginar tal coisa, nossas mentes quase não a embrulham – é uma coisa concreta que precisamos pôr no plano do abstrato. Números que funcionam mais como adjetivos: dez mil estrelas no universo para cada grão de areia na Terra, entre as quais orbitariam pelo menos, cem bilhões de bilhões de planetas semelhantes ao nosso. Daí que – embora a possibilidade de a vida ser um evento raríssimo não possa ser totalmente descartada – a matemática sugira a existência de centenas de milhares de civilizações inteligentes apenas nossa galáxia. Há bilhões de galáxias. A nossa, que singelamente batizamos de Via Láctea, tem cem mil anos luz de uma ponta a outra do disco, ou seja, a luz, que é a coisa mais rápida que existe, leva cem mil anos para atravessá-la. Mesmo que imaginemos uma pletora de civilizações do tipo da nossa espalhadas pela Via Láctea, o silêncio não chega a ser surpreendente. Lembremos que só começamos a transmitir nossos sinais há pouco mais de cem anos. Há estrelas visíveis a olho nu que estão a milhares de anos luz de distância. Duas civilizações podem pipocar e fenecer antes que seus sinais se encontrem (escrevi um conto a esse respeito em meu livro “Metamorfoses Privadas”, no qual duas civilizações visitam o planeta uma da outra, uma antes da outra ter evoluído, a outra depois que a primeira já se extinguira). Mas, se são os astrônomos quem nos descrevem essas distâncias inimagináveis, de onde pode vir a ideia de que elas já deviam ter sido vencidas (ou já foram) por uma comunidade de supercivilizações intergalácticas? A pergunta para essa resposta não está na física, mas na fé. No caso, fé de que nós estamos destinados a nos tornar uma delas.
Essa fé nós conhecemos há muito tempo, é a velha ideologia do progresso, uma das forças intelectuais surgidas na beira do século XIX, entre os direitos humanos e o descaroçador de algodão, que ainda exercem imensa influência sobre a maneira como vemos o mundo. Nossa época representa, sob certo aspecto, o triunfo ao menos temporário dessa ideologia; há quase um consenso de que o progresso seja inerentemente bom, e a longa tradição de resistência a essa noção, que começa no romantismo e cujo último foco relevante talvez tenha sido o movimento hippie, está hoje claramente enfraquecida.
um frenesi positivista
Um dos principais formuladores dessa ideologia foi Augusto Comte com seu positivismo, cujo eco é possível escutar, distintamente, nas fantasias de Kardashev. Para Comte, que morreu mais de cem anos antes do trabalho do físico soviético, a história humana deveria ser a do progresso do estado teológico, representado pelo governo da superstição e da autoridade sagrada, até o estado positivo, passando pelo estado metafísico – momento intermediário que teria sido alcançado com o Iluminismo. “A filosofia positiva”, escreve Comte, “é o verdadeiro estágio definitivo da inteligência humana”. Toda noção, portanto, é de que o progresso é a lei natural da humanidade, de maneira geral. Assim, concomitantemente ao progresso técnico, deve-se testemunhar um progresso político e moral. Essas ideias fizeram enorme sucesso no Brasil: é delas que deriva a tola inscrição em nossa bandeira. E são essencialmente essas as ideias que sustentam o fatalismo tecnológico da escala de Kardashev e do paradoxo de Fermi.
Todos nós já vimos alguma charge em que o famoso quadrinho da evolução humana – que mostra o progresso do macaco ao homo-sapiens bípede – não pára no homem ereto, mas continua mostrando a história, acrescentando às mãos do homem ereto os apetrechos das épocas, até mostra-lo, nos tempos de hoje, munido de computador ou celular, talvez com comentário cômico. Essas charges testemunham – crítica ou acriticamente – a noção de que o progresso tecnológico é, como o avanço do macaco ao homem, uma forma de evolução. Os biólogos nos explicam que a evolução não tem objetivo, o simples não deseja ficar complexo, e o menos inteligente mais inteligente – ela só acontece. No entanto, em nosso imaginário, está muito fortemente marcado o conceito que funde evolução e progresso, e imagina a história humana como um processo de contínuo aprimoramento rumo a algum lugar. De qualquer jeito, a noção de que a história tem um objetivo sempre foi parte da visão de mundo da sociedade cristã, e a modernidade positivista, quando se entrega ao devaneio futurista, só reencena o apocalipse trocando os nomes dos papéis. Uma luz (vinda não de Deus, mas da Razão) banirá as trevas (da ignorância, da tradição, do atraso, da luta de classes, you name it), e chegaremos ao “estágio definitivo”. O fim da história como conflito e o seu início como apoteose. Interminável e permanente apoteose da técnica.
O que esses astrofísicos parecem esquecer é que para uma tecnologia ser implantada não basta que ela seja possível, mas que exista uma sociedade com a necessidade, o desejo e a capacidade de implantá-la. Imaginar um ciclo contínuo de expansão de um milhão de anos, como faz o quarto argumento do paradoxo de Fermi, significa imaginar instituições que durem um milhão de anos, sociedades que não somente durem um milhão de anos, mas que, em um milhão de anos, não mudem de objetivos, de perspectivas culturais. É preciso que desenvolvam durante um milhão de anos o mesmo projeto. E qual projeto será esse? Imagino se Kardashev antevia um soviete intergaláctico. Para Michio Kaku, um dos mais entusiasmados divulgadores da sua escala hoje em dia, parece perfeitamente claro qual projeto está destinado a durar milhões de anos.
um big stick galático
Michio Kaku é um homem de olhos brilhantes, tem 69 anos de idade, é professor de física teórica em uma universidade em Nova Iorque e é um entusiasmado comunicador. O famoso futurista, físico, autor de best-sellers e personalidade do rádio e da T.V, que é como ele mesmo se apresenta em seu site, não deixa dúvidas ao descrever os sinais de que estamos à beira de nos tornar, finalmente, uma civilização do Tipo 1 – que será capaz, segundo ele, de controlar os terremotos e construir cidades no mar – e começar nossa ascensão rumo à comunidade das supercivilizações: a economia da civilização Tipo 1 será o capitalismo globalizado, sua língua franca será o inglês e sua cultura, a cultura americana, exemplificada (literalmente) por Hollywood. Quem não quer que essa transição aconteça? – pergunta Michio Kaku, e ele mesmo responde: os terroristas. O modelo político da civilização Tipo 1 é a democracia capitalista, em cuja defesa ele opõe às forças das trevas e da barbárie, enquanto uma exasperada jornalista tenta argumentar que as democracias também cometem atos violentos e ilegítimos. Como para Comte, a imaginação de contínuo progresso técnico precisa encontrar, necessariamente, correspondência no contínuo aperfeiçoamento político e moral. Confrontado com críticas à política bélica americana, Kaku argumenta que a violência americana é legítima porque é fruto do processo democrático, e que não tem “equivalência moral” com atos “bárbaros”. Obviamente, ninguém pode construir o conceito de supercivilização sem ter muito clara em sua mente uma imagem da barbárie. No caminho até o domínio das galáxias, até nossa transformação em uma civilização do Tipo III, existe uma luta a ser vencida, contra os bárbaros que não se renderem à nova ordem, e o nosso estilo de vida, a democracia capitalista está fadado a triunfar porque é melhor. Como podemos ver, o sonho mais piedoso da religião da técnica não exclui do seu roteiro a guerra santa.
Imaginar civilizações estelares é divertido, mas quando encontramos homens da ciência postulando a inevitabilidade dessas civilizações (é esse o título de um artigo de Kardashev “Da Inevitabilidade das Supervilizações e das suas Possíveis Estruturas”) é preciso parar para um pouco de análise do discurso. O resultado, como vimos, fala mais do presente que do futuro. Fala da ideologia que enxerga o tempo presente como auge da história e passaporte para uma espécie de presente definitivo que está à beira de se instalar. Que acredita que, apesar da crescentemente concreta ameaça das mudanças climáticas, será possível manter o crescimento exponencial da economia capitalista.
Nós – pessoas urbanas, modernas, participantes da sociedade de consumo – não somos mais inteligentes que os povos primitivos, da mesma maneira que não somos mais inteligentes que os povos que, ainda hoje, vivem como eles viveram. O desenvolvimento tecnológico não deriva de inteligência superior; é um comportamento, uma adaptação como qualquer outra, que emerge quando surgem a necessidade e as condições. Fossem outros nossos valores, consideraríamos modos de vida menos destrutivos como sinal de inteligência superior.
Não é necessariamente impossível que o capitalismo se revele uma força capaz de destruir a galáxia inteira, mas também não há uma única evidência de que essa seja a ordem natural das coisas. À falta de sinais das estrelas, temos de ficar com as evidências disponíveis em nosso próprio planeta: as espécies de mamíferos não parecem durar muito mais que um milhão de anos, e nós, nos últimos cento e poucos, já fizemos estragos que não temos ideia de como corrigir. Cega às contradições e petulante frente aos desafios, a fantasia da civilização Tipo III dá, no fim das contas, mais gasolina ao motor desembestado: diz que não há direção a ir senão adiante, que não há como a não ser mais rápido, e que tudo vai terminar bem, porque nós estamos certos.
Eu não sei se eu queria estar aqui. Não sei se publicarei esse texto, ou se vou chegar ao fim dele – sim, eu tenho consciência do quanto soam tolas essas frases de abertura, se o texto foi, enfim, escrito e publicado, mas leve em conta, leitor querido, leitor severo, que esse momento existiu de verdade, esse meu momento aqui, sentado frente ao texto, sem saber se eu queria estar aqui. Eu sou uma daquelas pessoas que acham difíceis as coisas. Nunca me esqueço desse amigo; é um amigo querido, um amigo a quem invejo e de quem tenho um pouco de raiva, falando comigo, uma vez, de não sei quem: “ela é uma dessas pessoas, sabe, uma dessas pessoas que acham viver muito difícil?”, e ele ria, um pouco condescendente, de como essas pessoas são estranhas, e eu ri junto, fingindo, para que ele não desconfiasse de mim, não descobrisse que eu era só mais uma delas, uma dessas pessoas que acham viver muito difícil.
A razão pela qual invejo esse amigo – além do fato de ele trabalhar mais do que eu – é, obviamente, sua condição privilegiada de pessoa que não acha viver muito difícil. Isso se nota nele, como uma aura. Uma efusividade recheia seus gestos, seu olhar, e parece ser verdadeira. Não digo que ele viva incólume aos desafios e frustrações da vida; esse meu amigo não é um privilegiado, um bonvivant, ele viveu sua cota de desgraças, aguentou a orfandade, as dificuldades de emigrante. Não estou me referindo a um bobo que acredita em um mundo cor de rosa, somente de alguém que não enxerga na vida, na lida diária da existência, nessa sucessão interminável de tarefas, nada demais, e que simplesmente faz tudo o que tem que ser feito. É impossível perguntar a uma pessoa assim qual o seu segredo, porque ela jamais entenderia a pergunta. Estaríamos perguntando a ela como ela resolveu o problema, enquanto ela nunca teve problema. Perguntaríamos a ela o que fazer com o sentimento, com o insidioso cansaço, com o desânimo invencível que aproxima com o prazo, ou com essa auto-recriminação de não ter feito que nos invade antes mesmo que tentemos fazer, mas esses são para elas sentimento alienígenas.
É muito fácil olhar para essa gente com um olhar arrogante. É muito fácil concluir, em benefício próprio, que nossas dificuldades são o resultado de uma subjetividade altamente desenvolvida, e que só um sujeito insensível, uma verdadeira máquina, um espírito frio e pragmático é que pode achar fácil viver nesse mundo tão carente de sentido. Mas precisamos admitir que é uma explicação muito condescendente. Não deve ser o melhor de nós que abraça nossas pernas, segura nossas mãos, enquanto sofremos por não conseguir fazer aquilo que precisamos ou que queremos, ou que queríamos querer. Todos tivemos, na infância, professores do medo e da vergonha; alguns tiveram professores mais aplicados que outros, ou foram alunos mais suscetíveis a essas terríveis lições. Esses professores continuam a nos habitar, e também essas crianças.
Eu não sei se eu queria estar aqui. É claro que ninguém está me obrigando. É claro que fui eu, como pessoa adulta, que escolhi me sentar à cadeira, que escolhi palavra por palavra, que copiei as palavras de um arquivo Word para o blog, que escolhi apertar o botão “publicar”. Mas essas foram decisões tomadas no passado, por um “eu” comprometido e preocupado com o futuro, que após ouvir alguns bons conselhos decidiu montar esse blog, porque um escritor tem que ter um espaço virtual para vender seus livros, porque um escritor tem que escrever e mostrar sua escrita ao público pelos meios disponíveis, porque, porque, porque…. São todos motivos muito bons, que aquela fatia de razão acossada no fundo do cérebro percebe, reconhece e valida, tentando falar mais alto que o vento que sopra em meu crânio. O vento que sopra em meu crânio: sempre que produzo um texto não literário, analisando um tema qualquer, eu fico muito satisfeito com ele até a terceira leitura, e logo depois o vento me pergunta como eu tenho coragem de achar que consigo pensar a respeito de qualquer coisa. Ou como tenho coragem de colocar num blog um texto literário antes de um milhão de necessárias revisões. Ou como eu posso escrever crônicas se não tenho nada a dizer. E como posso escrever um texto sincero, se o sentimento que mais me assalta é essa impossibilidade, esse sentimento sem brilho, sem fogo e sem sex appeal. E nessa hora me sinto fadado ao fracasso e ao silêncio: se eu me confessar a um buraco na terra vai crescer ali um bosque, e o vento, ao passar pelas árvores, vai revelar a todos que tenho orelhas de burro.
Passei muito tempo desejando ser como aquele meu amigo, desejando – ambicionando mesmo, fazendo planos para obtê-lo, procurando estratégias – um estado de espírito que tornasse as coisas mais fáceis. Nunca cheguei nem perto. Existem esses momentos, claro, em que a vida é fácil, as horas de amor e de vinho, de arte e elegância, mas essas horas não estão em questão, elas são o descanso da vida e não seu trabalho. No resto do tempo não existe outro remédio e não ser se conformar com a natureza aflitiva das tarefas cotidianas, que insistem em nos atrapalhar no meio das nossas grandes questões, e também das nossas grandes questões, que insistem em permanecer sem resposta satisfatória. Não existe outra resposta a não ser olhar no espelho: há um sabotador com a ferramenta em punho. Mandá-lo totalmente embora, acho impossível. Mas quem mais pode controlar os seus estragos?
– Mais alto. Deve dar uma castanheira e meia daquela.
Ele me olha com bonitos olhos verdes, cheios de incredulidade. É o filhote temporão, excessivamente protegido. Na maior parte do tempo está enfiado dentro de casa, no centro das vastidões inexploradas. Nem parece uma criança da roça; seus pais o chamam de “neném”, e aos oito anos ainda não sabe subir em árvores. Seu pai é analfabeto, roceiro e assassino. Tenho-o ensinado, no igarapé do vizinho, os fundamentos da natação, mas não vou ficar aqui tempo o bastante para vê-lo dar as primeiras braçadas, infelizmente. Numa tarde vazia ele me pergunta se acredito em deus.
Quando uma pessoa do campo me faz essa pergunta eu costumo mentir, mas com Tiago criei uma relação, e digo “não”. Ele não mostra surpresa. Me conta que viu num desenho animado a história de Jesus Cristo: “Foi quando deus morreu. Os bandidos mataram Jesus e pregaram ele bem assim” (ele me mostra) “com uns pregos bem grandes. Eu não sei o que aconteceu depois porque eu não vi o resto do desenho”. Seus olhos investigam alguma ideia. “Se deus vive no céu, ele vive em outros planetas?”. Eu digo que não sei. Não quero interferir com meu cientificismo pé quebrado na visão cósmica do garoto. Ele deverá resolver sozinho esse problema, e outros muito mais prementes que a vida vai lhe apresentar. E eu sentia uma preguiça muito grande; tínhamos nadado até a hora da malária, e o meu estômago, cheio vísceras de porco e de cerveja, me atracava à rede como uma âncora de cargueiro. Tiago se distrai de deus, pergunta da minha tatuagem de punhal (ele chama de espada), da qual ele gosta muito. Também repara nos meus brincos, e diz que seu pai lhe informou que brincos são coisa de veado. O sol já desmaia além do pasto, as luzes da varanda se acendem. Besouros se lançam contra a chapa da calha, cada qual com estrondo maior. A voz da mãe grita o Tiago da outra casa. A vida humana fervilha no Norte, inventando e destruindo.
Ontem eu queria ler, mas só tinha um toco de vela. Isso de ler à luz de vela é um habito que foi se consolidando; parece primitivo – e é, com certeza – mas para os abajures é preciso uma tomada próxima, das pequeninas lâmpadas de led, dessas que se prendem à capa do livro com um grampo, as baterias vivem se esgotando, e além disso a chama amarela da vela, com sua luz familiar, bruxuleante, é a que menos perturba o sono da mulher ao meu lado.
O defeito principal das velas, ao lado do risco de incêndios (meu travesseiro uma vez pegou fogo), é que elas acabam, e ontem eu não tinha mais que um toco que não durou nem dois contos do Bábel. O pequeno toco levantou a chama grande, que toma corpo antes que o pavio se esgote, e depois se recolheu como um espírito que dorme. Mas, no lugar de se apagar completamente, formou no centro da cera uma pequenina esfera azul. Sempre admiro a dança do apagar das velas, e fiquei ali esperando que a esfera azul morresse, mas ela durava. O pequeno ovo de fada, aquele foguinho azul e esférico (é assim, os astronautas contam, que o fogo queima no espaço), tão cândido que era possível chegar muito perto com a mão sem sentir calor insuportável, durava. Sua estrutura minúscula, sua arquitetura de faísca, destinada a existir por um instante somente, permaneceu diante dos meus olhos por longos milagrosos minutos, talvez quatro. Nesse momento o espanto cedeu lugar à familiaridade, e me tornei confiante de que ela permaneceria viva ali, por tempo ainda mais surpreendente. Quis mostrá-la à Hévelin, cheguei a chamá-la (“amor…”), apanhei o pires para voltá-lo em direção a ela, e no instante em que o movi a pequenina chama desapareceu.
Acho que não devo me recriminar por isso. Não há como ter certeza de que fui eu que matei a chama, ela que por si só era um fim de gesto. Pena tê-la visto sozinho, pois com quem quer que eu fale dela não compartilharei o vivido, mas uma descrição – assim como quem ler esse texto vai dizer “isso não é uma chama”. Quando é que se repetirão diante dos meus olhos semelhantes condições; o tamanho do pavio, sua posição, a disposição ótima da pressão e do vento? Possivelmente nunca, mas é para isso que serve um olhar atento. De qualquer forma procurei me consolar, e tentando dormir eu pensei: em algum do universo certamente existe uma paisagem inteira salpicada dessas chamas, essas pequeninas chamas, algum planeta em que essas gotas de fogo azul se formam como orvalho sobre as rochas, brilhando num ar rarefeito, escondidas para sempre do olho humano.