A MANCHA NA CALÇA

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Vasily Maximov

publicada originalmente em 1 de maio de 2017

Calças boas mesmo – no meu número, sem furos do tempo nem manchas de cândida – tenho três. As outras já viraram trapos de usar em casa, ou esperam, desesperançadas, que eu as leve para ajustar na costureira. Uma delas, além disso, quase foi para o lixo; passou um período suja com uma mancha teimosa, aflitiva, e eu achava impossível de usá-la. Nem tanto pelo aspecto e tamanho da mancha – uma manchinha no joelho, somente –, mas pela memória viva e repulsiva que ela me trazia; aquela pequenininha mancha de sangue alheio.

Um sol de outono lavava o elevado, que ainda tinha com o nome do ditador. Isso foi na época em que nós estávamos com dinheiro para comer orgânicos. Na boca da Francisco Matarazzo, no caminho de ida para a feira, uma mulher nos interpela e me pergunta, com ar sério e despreocupado, se eu podia ajudar a levantar seu marido. Havia um homem ao lado dela, aproximando seus sessenta anos, com o cabelo lustroso de tintura. Ele também era um desconhecido, um transeunte apanhado na rua, pois levantar o marido era serviço para dois. Ela explicou o caso. Não é que ele tivesse caído; seu marido estava paralisado, era preciso tirá-lo da cama para o banho de assento e ela não tinha forças, nem ajuda de ninguém. Então isso era um ritual de todo dia, ficar parada na calçada da avenida a espera de dois estranhos que levantem seu marido da cama para a cadeira de rodas, e terminado o serviço outros dois, da cadeira de rodas para a cama. Ela nos levou para dentro da pequena vila. Antes de passar pelo batente me ocorreram, é claro, as desconfianças previsíveis, mesquinhas e assustadas, mas não se recusa um pedido desses.

A casa transpirava velhice, na máquina de costura de pedal, nas fotografias ovais pintadas à mão, mas a sala era limpa e organizada. A mulher nos conduziu até o marido. Era uma mulher muito feia. Finos bigodes de mandarim caíam dos seus lábios, uns tantos dentes faltavam dentro da boca. Sua roupa era da mesma superfície da casa e das coisas, aquela textura aviltada pelo tempo e pelo uso, mas resistente a uma degradação total; agarrada ainda, com firmeza, à linha da dignidade. Eu não desejo ser injusto, é muito claro que ela sozinha mantinha aceitável, com imenso esforço, aquela vida desgraçada, mas no quarto do marido ficava visível que o fardo era pesado demais. Aquele lugar me trouxe um cheiro à consciência, um cheiro no qual eu não tinha conseguido reparar – antes de ser atingido por ele em forma tão pura, tão destilada e chocante – mas que eu já conhecia, e que depois daquilo comecei a sentir pela cidade toda, nos mendigos, nas esquinas encardidas, nos velhinhos esquecidos; suor antigo e poeira encruada, sonhos desfeitos e desesperança. O homem era um gigante moribundo, um velho de mais de um metro e oitenta abandonado numa cama de madeira, largado como um saco de batatas por sobre uma mancha de urina. Tinha o olhar flutuante e não falava. Um cateter despontava do seu corpo seminu.

Movê-lo da cama para a cadeira se mostrou uma tarefa dificílima para ser executada por dois leigos, nenhum deles muito forte. O velho pesava como um cadáver, nenhuma posição era boa, ele gemia, uma queda seria inaceitável. No desespero de chegar até fim não dei atenção ao nojo e subi no colchão mijado; única forma de ter apoio para agarrá-lo pelas axilas enquanto o outro estranho apanhava as pernas, e somente aí conseguimos içá-lo, num instante heroico de esforço, da cama para a cadeira de rodas. Atracado o velho à cadeira, não esperamos, eu e o outro estranho, nenhum segundo para ir lavar as mãos. A mulher nos agradeceu sem excessiva ênfase. Saímos de lá comentando a miséria da vida e (inevitávelmente) o peso do sujeito. O homem de cabelo pintado contou que sofria da coluna. Em seguida notei o sangue em minha calça, vindo provavelmente do cateter.

Seguimos pela Francisco Matarazzo a caminho da feira, comentando o acontecido, e o prazer da boa ação era um pouco nublado pela inevitável repulsa ao colchão mijado, ao sangue em meu joelho, à pele azeda e oleosa do velho. O cheiro estava vivo e forte em minhas narinas, e continuou assim por muitos meses. A feira estava cheia, o dia era de sol. Fizemos nossas compras com pressa de voltar para que eu pudesse tirar a calça manchada. Contamos a história a um amigo, na barraca dos sorvetes e das frutas congeladas. Ele então nos contou esse caso: nunca tinha se dado especialmente bem com o sogro, mas viu-se na função de cuidar dele ao fim da vida, quando ele já não andava e era dependente para tudo que é básico, e uma vez, por um causa de um remédio que desregulou sua rotina, o velho cagou em cima dele, de uma vez só, a merda acumuladas de uma semana inteira, num jorro de violência bíblica, enquanto ele o movia da cadeira. Ele tomou um banho da merda do sogro. “Isso é que é a verdadeira intimidade” – ele nos disse – “você não fica mais íntimo de uma pessoa que isso”. Ouvimos e fomos embora. Naquele dia compramos figos. Depois de muitos meses, com muita água quente e esforço, a mancha foi removida e a calça ficou parecendo nova. Essa história tem dois ou três anos. O velho se deus quiser já morreu.

Rui Xavier

Vagão De Carnaval

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Beatriz Milhases

publicado originalmente em 18 de abril de 2017

No metrô febril de carnaval escolho um dos vagões com mais bagunça. O carnaval ainda não começou, são só os primeiros blocos, um ensaio ainda tímido dos temas e das cores que ao longo da semana ainda vão eclodir na nossa normalidade precária. Descem a escada rolante meninas com orelhas de gatinho e garotos com tiaras de flores; faunos e ninfas cobertos de glitter. Cantam bem alto o funk da moda, riem, batem nas palmas, nas coxas, nos bancos. Um deles acende um cigarro em pleno vagão; a encrenca instala-se e depois passa: um velho manda que apaguem, os meninos obedecem, mas não querem ouvir o sermão. Engrossam com o velho, que se cala. Quando foi que comecei a reparar que esses rapazes são corados como crianças? Na saída da estação, passa um grupo de meninas fantasiadas não se consegue saber de quê, vestidinhos curtos, bufantes, corpetes com o tema das cartas do baralho. Nessa hora não contive uma risada, porque meu olhar, quando eu superava a catraca, saiu delas para cair imediatamente num par de freiras idosas, parado a espera de alguém. Mulheres de fantasia.

Fiz o que tinha ido lá fazer. Foi preciso dar voltas com o carro, viaturas se amontoavam numa esquina, houve atrasos e mal entendidos. Nas obras do monotrilho, intermináveis, há pichações contra o novo prefeito. Já passam de onze e meia e a criançada ainda joga bola, os pais bebem cerveja e conversam, o comércio funciona e o culto chega a seu fim. Grupinhos atravessam a avenida com desprendimento suicida, eles estão rindo e brincando, são outros jovens, sem nenhuma fantasia. Vista de dentro do carro, planando sobre a rua em viadutos, a cidade é um brinquedo de corda, um teatrinho de sombras.

Sou deixado novamente no metrô, para voltar para casa. Quase não há sinais do carnaval. Assediam o olhar as repetidas telas. Já vão anos que colocaram essas telas, onde passam informações de almanaque, publicidade das novelas e manchetes de notícias, mas eu nunca vou me acostumar com elas. Leio ali que a garça branca, inteligente, usa pedaços de pão como iscas para atrair peixes. É com esse tipo de loucura que temos que lidar todo dia. Uma ordem inescapável e ridícula. Como não se encher de raiva e de desprezo por um leviatã tão bobo? Como é que não explode, de pequena, a válvula do carnaval? De onde é que a garça tira pedaços de pão?

Rui Condeixa Xavier de Oliveira